Meu
Deus, como tem sido dolorido criar coragem para me responsabilizar pela minha
própria liberdade! Como venho sendo vítima de vários atentados com essa entrega
de escolhas a mim (justamente para mim, cuja única guerra que declarei foi
contra meu indivíduo). É um desconforto imenso, tão grande, querer voar e de
repente receber o céu inteiro. Dá até vontade de permanecer na gaiola, só por
gratidão. Eu, que sou bobo, acostumei-me a encontrar um infinito no pouco que
me foi dado. Também ser firme diante das vastas e difíceis impossibilidades
para ser, só para, com surpresa, encontrar uma brecha que possibilite um
pequeno espaço, um mísero instante daquilo que bilha nos olhos – há vaidade, há
coisas que se deseja sempre. De alguma forma, o que não agrada viver serve como
apoio para esses espaços e instantes aleatórios, meio banais e clichês, meio
flores de cactos. Eu bem mereço essa liberdade e a dor de consumi-la;
entregar-me-ei.
Não tenho falado. Há uma manifestação da palavra que me emudece, há algo que nos cutuca, revira-nos, quando escrevemos: o que costumeiramente não sabemos sentir. Às vezes escrever dói. E as vezes, escrever é a forma de exibir a tatuagem que está desenhada no perispírito.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
sábado, 7 de março de 2015
PARA QUEM NÃO SE RECONHECE BATATA
Aconteceu nesses dias, mas só agora os
estalos impulsionaram o querer falar. E eu somente falo com intimidade quando escrevo;
comunico-me melhor e sou mais compreensível assim. É o seguinte, disseram que eu
estava atrapalhando o desenvolvimento de um trabalho, só falava besteiras – daí
constato que me comunico melhor escrevendo.
De início, senti-me
levemente incomodado. Senti também como se um soco tivesse me atingido por
dentro, perto da minha ferida no estômago. Obviamente, nada disse, calei-me por
dois segundos, logo depois continuei eu-me, obviamente afetado. Obviamente, eu
deveria ter dito algo contra aquele veredicto, defendendo-me, talvez. Nada fiz,
porém não me foi tão obviamente sabido o por quê. Então outros pequenos estalos
foram me ocorrendo durante o resto da tarde e culminaram no estalo maior que é
este impulso de escrever.
Pois bem, vou falar o
que aconteceu, não exatamente como, mas foi o me que aconteceu – de algum modo
as pessoas sensíveis compreendem o que acontece a outra pessoa, pois elas
também sabem como acontece com elas.
Antes de eu falar
minhas besteiras e atrapalhar o desenvolvimento do trabalho, três pessoas e eu falávamos
sobre saúde mental e arte – parece simples, mas é difícil. Todos falavam e
falavam sobre ideias com a finalidade – fi-na-li-da-de – de estruturar uma
apresentação para o tal trabalho que atrapalhei o desenvolvimento. Eu falava e
falava. Acontece, porém, que eu falava e falava como louco que, às vezes, sou
agraciado em ser. E tão logo falar e falar não me foi mais permitido! Não recordo
bem o que falei, só que falei e falei. Para ser exato, não lembro daquele
momento, como se não fosse possível saber o que é liberdade. Porém lembro com
clareza e precisão do corte.
– macho, tu só fala besteira, só faz
atrapalhar...
Antes de ouvir o resto,
eu já observava o Falante, que baixou a cabeça (acho que se constrange quando
fala). Penso tenho olhinhos de coruja.
O corte foi feito, fim
de arte. Assim escorreu a experiência que, como já disse, vez ou outra, tenho. Daí
também compreendi que não falávamos de saúde mental, muito menos de arte.
De volta à normalidade,
sem atrapalhar o desenvolvimento do trabalhar com besteiras, percebi que
falávamos do oposto ao normal, da saúde mental como promoção da salvação para
aqueles que são o antônimo de normal, o oposto de nós, os são – agora já estava
incluso na conversa.
A loucura anunciada era
a mesma que deveria ser cortada, aquilo que não é de nossa compreensão, aquilo
que deve ser retirado por atrapalhar o desenvolvimento do que é passível de ser
dito com clareza e precisa. A loucura não é comum a todos.
Boa parte guardo para
mim, a experiência era minha, o corte também foi para mim. Tudo isso aconteceu,
mas o que estalou e conduziu-me ao impulso foi o Falante.
O Falante poderia ter
sido qualquer um, mas foi aquele que mais se aproxima do conhecimento da
loucura. Talvez se aproxime por exclusão, afastando-se enquanto conhece.
A expressão do Falante
é o que o afasta da experiência da loucura, não da loucura de loucos, mas das
loucuras do ser. Ele não pode se deixar ser nem os outros podem ser tanto com
ele.
Ele fala como se
soubesse o que ninguém sabe, chocando com a novidade (que muitas vezes é de
conhecimento de todos, mas sem a necessidade de ser anunciado) e impondo
respeito. Respeito não por ser, mas por ter a luz para a ignorância. Ele intelectualiza
a expressão de viver de forma dura. Dói quando se olha: daqui, nota-se o
extremo, o outro lado de quem passou por muita coisa e somente carrega o fato
consigo, ficando distante do que aconteceu e ninguém disse. O falante não gosta
das palavras organizadas de forma poética, da forma eufêmica de falar. Também não
gosta da beleza da simplicidade e do otimismo que é ridicularizado e pouca
gente acredita. Ele corta tudo isso que sabe.
Esses estalos vinham
acontecendo há alguns dias, estalava quando os escritores pau no cu o
assombravam com dizeres sobre a potencialidade de se desenvolver nas adversidades,
dizeres sobre as potencialidades das batatas. Quem estuda botânica fala que
essas batatas passaram por algum processo de Fotomorfogénese, em que plantas, no
escuro, crescem estioladas. Para os escritores pau no cu isso é a tendência à
atualização que toda coisa viva tem. Assusta-o tanto otimismo fajuto.
Eu, que acredito (às
vezes de forma jocosa) na poesia que há na organização e no vácuo de uma
palavra para outra e que também acredito no potencial das batatas, enxergo o
Falante como um broto. Um pequeno e estiolado broto de batata que também gosta
das palavras. Expressa-as com medo, por meio de cortes, que também lhe acertam
e o afasta daquilo de ser-no-mundo.
Priva-se agora por
conta própria daquilo que foi.
E minhas besteiras algo
lhe causaram, por que não? Desconforto no pecador que gosta de pecar e não
compreende por que toda a burrice que lhe é dita incomoda, logo nele que não
acredita em pecados, mas sente-se ameaçado.
Estalou-me tantas
outras coisas que não vou escrever por amor a mim e a todos no mundo, também
amor por às batatas. Também por salvar o Falante da minha maldição.
Eu não tenho
pretensões, não embelezo as palavras, apenas uso-as por conhecer o gosto que
elas têm me dado. Resta-me ainda descobrir o meu próprio incômodo, que
contribuiu para tantos estalos.
Eu deixo-o ser.
sábado, 20 de dezembro de 2014
E SÃO FEITOS MEUS AMORES
E São feitos Meus Amores para baixar de graça na Amazon *-*
Se tu me amas... confie em mim da mesma forma que eu confio em ti, como diz Sometimes. Confie desconfiando, insegura; confie de olhos abertos. Se tu me amas, tenha dúvidas, seja incerta sobre esse sentimento. Cultive-o como um desejo eterno.
E são feitos meus amores é uma obra composta por 17 contos de escrita simples e, por vezes, direta. As histórias acontecem em cenas do cotidiano que são penetradas por diversas vivências amorosas, muitas das quais afloram na adolescência e percorrem o resto da vida. Os contos são permeados por drama, sentimentalidade e humor; seus desfechos são incertos, algumas vezes, inexistentes, e em outros contos são constantes. E assim são feitos todos os amores
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
CARTAS ANÔNIMAS - Carta nº X
Heloíse,
Quaisquer
que sejam as reflexões sobre os motivos que a conduziram até ao que amargamente
vivemos agora, peço-lhe que faça um esforço para resguardá-las. Não estou pedindo
para que você as contenha, esqueça-as ou não as sinta como são. Estou pedindo
para que as guarde de mim por um tempo. Peço que seja paciente por uma semana. Estou
inteiramente certo de que não poderei aguentar seu desabafo agora. Sim,
Heloíse, eu sei bem, compreendo seus motivos, pois os percebi por meio do meu
jeito de ser. Eu os reconheço em mim e não consegui fazer nada para que não lhe
afetassem. Embora eu tenha tamanha consciência, sou absolutamente fraco. Talvez
seja pela minha fraqueza, mas porque você que é mais forte, Heloíse; e nem por
isso quis ficar. Minha estrutura não aguentaria ouvir de você o que não consegui
reelaborar para fazer com que quisesse ficar aqui. Não vou pedir para que
volte, ou para que não parta para mais além de onde já está (mesmo que eu
cultive esperanças de que uma luz possa atravessar essa hora mais escura, esse
momento que nos deixou cegos). Eu, por simples egoísmo de querer me proteger,
não posso lhe dar a palavra... Por favor, não esqueça o que tem a me dizer, mas
não o faça agora. Escreva uma carta para me enviar adiante, para que assim não
se sinta sufocada... Veja só, estou extremamente afetado com a proximidade da consciência
sobre o que estou escrevendo; e não posso mais me alongar nestas linhas. Mais
uma vez: por favor, permita-me ser mais grato a sua nobreza, pois sei que
compreenderá que eu não estou fugindo, apenas fortalecendo meus alicerceies para
suportar todo o peso que há de vir. Apenas mais sete ou oito dias.
Sinceramente,
A.R
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Antes das pedras
Meu queridíssimo, tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor. Deste-me a maior felicidade possível. Fostes em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou destruindo a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler. O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.
V.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
EU TE LIBERTO, TU ME LIBERTAS. NÓS VOAMOS.
- Você me encontrou rápido. Estou com
medo dessa alegria repentina.
- Eu não te procurava. Estranho, não é?
- Muitíssimo. Eu também já não esperava,
penso que foi isso que fez você chegar rápido.
- E agora, o que a gente faz?
- Acho que nós ainda não falamos quem
somos.
- É... acho que também não queremos
saber. Acho que mesmo é que somos o que fazemos a partir de agora.
- Tu acredita mesmo nisso, na gente que
se gosta sem nem se conhecer?
- Acredito. E acredito, sobretudo,
porque quando olho nos teus olhos não estou querendo ver o que é meu, muito
menos o que me falta.
- E você me aceita assim?
- Aceito.
(Silêncio).
- Fala alguma coisa.
- Prefiro ouvir você falar.
- Tudo bem. Eu gosto do
silêncio.
- Eu também.
(Riso constrangido).
- Vamos?
- Vamos.
- Para onde?
- Não sei. Você quem me chamou.
- Pensei que você soubesse para onde
estava me levando.
- Parece doido, mas me sinto passageiro.
- Mas eu não sei para onde estou indo.
- É melhor quando a gente não sabe.
(Juntaram as mãos e voaram sobre o mar, deixaram-se
levar pela brisa entre a luz da lua, das estrelas e de seus reflexos).
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
ANEDOTA DA DANÇA
Achei
espaço para uma anedota. Talvez haja mais espaço do que eu tenho a dizer. Veja só,
nem sei especificamente o que dizer nesse espaço tão grande.
Já
dancei descontroladamente, de olhos fechados, sozinho no quarto, fazendo
movimentos que desconheço tamanha falta de sincronia, ouvindo as músicas do
music player do meu celular. Foi tão boa a sensação que quando abri os olhos
senti vergonha, como se tivesse feito algo de errado. Entendi nada. Às vezes cristalizo os pensamentos sobre o que não compreendo e vivo guiado por isso,
tão cego.
Desci
até o chão com a mão na cabeça, não me vi, porém tive a impressão de que foi
uma descida de rebolado sexy. Vou fechar os olhos e fazer novamente, agora devagar, lentamente, para saber o que mudou, pois a música que me toca já é
outra. Não sei dizer o nome dela porque é em búlgaro, mas o refrão é mais
ou menos assim: do crai, do crai, e éssi tempi pay do crai. Do crai, do crai,
hosti zado bai, pou mê nê, pou mê nê, poludei, poludei, poludei.
Dessa vez abri a boca
e gozei. Cantei fora do ritmo, a letra não posso dizer se errei, fiz do meu
modo. Acabou o espaço, vivê-lo o ultrapassou.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
O ESPAÇO DESTINADO AO QUE É GASOSO
Caibo em lugares pequenos, muito
apertados como a saída do útero. Caibo nestes lugares que apertam todas as
partes do corpo, machucando a carne contra os ossos e contra as paredes do
aperto. Coloque-me, sem medo da claustrofobia, dentro do aperto porque não encontro
espaço para me depositar fora dele. Não há chão seguro para pisar, tampouco quero
colar os dois pés no chão – desejo a ínfima sensação que coça os pés descalços,
que flutuam sobre o ar abafado presente nos pouquíssimos centímetros entre o
chão e o solado dos pés, o pré-contato. Queria ser o recheio do oco, a melhor
comida que é oferecida quando se não tem fome.
Na minha intimidade, nunca pertenci a
lugar nenhum, pois sempre estive muito espalhado, como fogo conduzido por uma
grande ventania. O mesmo fogo que também corre por uma floresta seca. Ou ainda
as cinzas que são jogas do topo de uma altíssima montanha.
Busquei conter-me em mim – nunca encontrei
o sossego. Estar avulso angustia-me; eu que sempre fui tão livre, não suporto
mais esse costume. A verdade do que falei agora pouco: nunca fui livre por
inteiro em um espaço que pudesse me colocar. Somente quando, livre das
insônias, durmo em posição fetal, igualzinho como se estivesse no útero. É como
se estivesse em um lugar que eu nunca estive antes. E estive sem saber que
aquele era o lugar.
Veja só, little thing, até minhas palavras
são avulsas e confusas. Não, não pretendi falar sem nexo de propósito, acredite
em mim que estou sendo tão espontâneo como o ar. Se não me entende é porque
estou te enchendo com um turbilhão de ideias por segundo, sem filtro e sem
ordem.
Estou prestes a surtar. Talvez um psiquiatra
dissesse para mim “sim, você está pestes a surtar” e eu diria “sim, eu sei que
estou porque sinto tudo em mim mudando muito rápido para que eu possa acompanhar.
Também sinto uma coceira que não existe se espalhar pelo corpo. Primeiro do
joelho para baixo, depois do joelho para cima. Fico muito irritado com a
angústia que isso causa, seu psiquiatra. Coça tanto que começo a chorar. E coço
como se ela existisse”. Então ele diria “como eu dizia, você está prestes a
surtar, inclusive já está tendo pequenos surtos”. Depois escreveria tudo do que
eu precisaria em um papel e finalizaria a consulta com “tome três vezes ao dia
e dobre a dose quando a coceira começar”.
Enquanto não marco minha sessão, paro de
pensar no quanto minha coceira coça e ela deixa de me matar. Li que isso é
psicossomatização, mas o psiquiatra dirá que é alucinação - alguém tem que
acertar em algum momento. Como falava, paro de pensar na angústia que me coça e
volto ao meu delírio de viver, no que foi tecido de modo que eu continuasse
normal na vida. E por tudo isso, pelo espaço que nunca tive, quero condensar o
que restou do meu estado liquefeito. Quero uma caixa para me depositar dentro e
saber que existo em algum lugar.
sábado, 12 de julho de 2014
O que há de novo hoje
Estou no meio da escuridão e não estou
fazendo poesia. Aquém do dia de hoje, estou em anos que já vivi, rogando pragas
a mim mesmo por não ter prestado atenção àqueles segundos. No escuro, enxergo
que de tanto procurar a felicidade nos anos imediatos, esqueci de perceber que naqueles
segundos de surpresa encontrava-se a felicidade propriamente dita. Deveria ter
agarrado e transformado em alguma coisa só daquele momento – se prolongasse
mais a sensação, seria monotonia, não a alegria, a felicidade, sei lá.
Danço ao som das músicas que já me
fizeram chorar, entristecendo-me. De algum modo, são todas atuais. Tão paradoxo
esse sentimento de nostalgia, sufoca com lembranças de momentos que jamais
pensávamos querer lembrar, momentos tão comuns que fazem tanta falta. É um
castigo para aqueles que não admiram a beleza do comum que guarda certa
excentricidade dentro de si. Nem tudo é puro comum. De qualquer modo, não importa
se meus olhos embaçam, pois não enxergo nada no breu. Se tudo o que eu vi não
vejo mais. Adiantei-me para quê?
Estou entre molduras. Que desgraça, que
desgraça! Por que algo não pisca? Por que
eu pensei em piscar se eu iria sentir falta dos vagalumes que já cacei? Eu sou
tão jovem, but not younger than yesterday. Desde quando eu me fui, deixei muita
saudade para ser sentida pelo que ficou. E nem sei se ainda quero me encontrar,
não achei nada do que procurava no futuro. Acho que o erro foi pensar que o
tempo passava tão devagar. Que tinha algo para ser alcançado. Ah, não! Enquanto
eu apenas pensava no que já vivi, perdi horas de um viver. No futuro vive o
passado que se deseja. No amanhã desperta a saudade do hoje.
terça-feira, 17 de junho de 2014
O QUE A GENTE NÃO SABE DIZER
Queria conhecer uma
língua que expressasse aquilo que tenho a dizer. Pode até ser em poucas
palavras, tirando a sensação de não ser compreendido quando falo. Tudo que digo
pare de ser conteúdo refratado do que quero dizer, eu quero falar uma linguagem
pura, sem embaraço de figuras de linguagem.
Preciso me comunicar
comigo mesmo, mas não estou conseguindo apreender nada do que penso dizer, como
se todas as coisas que disse fossem assaltadas da minha boca, seus significados
levados embora. Restou-me o sentido que não pode ser dito. Minha força está
presa aí. Simplesmente não enxergo minha força de querer, porque não sei dizer
o que quero.
Anseio dizer querer muita
coisa. E não digo absolutamente nada. Creio estar ficando sufocado na lacuna. Ainda
não sucumbi por ter meus modos desajeitados de fingir força que não tenho, que
também tiro não sei de onde – do meu potencial inerente de ser homem, quem
duvida?!
Tenho medo de
desaprender a querer, pois meu desejo como gente que deseja não está querendo
muita coisa ultimamente; como pode? Quando percebo que estou desejando, logo
fico fadigado, apresentando uma indisposição com uma vontade de chorar com os
olhos secos de lágrimas. Até chorar tem sido agonizante. De tanto que tentei
dizer o que queria e ninguém saber o que eu estava dizendo, estou parando de
querer.
Ah, também não ando
mais me comunicando por escrito, pois quando penso que estou escrevendo uma
palavra, vejo que estou escrevendo outra que nem sempre existe na língua
portuguesa ou em qualquer outra língua. A única coisa que ainda consigo
expressar é que estou perdido – tem gente que já esteve e toca meu ser. Ao menos
não estou só, mesmo que me sinta solitário.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
MAIS UMA PEDRA
Do que se trata isso? Sobre o que é
dessa vez? Chegou-se ao ápice, ao cume, ao apogeu, qualquer outro sinônimo,
como também ao poço, à baixo, ao fim. Porque ele vai dizer “eu acho chatíssimo,
não vou mentir para você”. Tentou se convencer, ele jura por Deus, mas
realmente acha entediante, não adianta suas explicações não condizentes com a
vida. É um complexo que também se junta aos seus complexos íntimos. Você passou
o dia fora hoje, até quando ele te procurou, você se colocou fora: acabo de
perceber que você está indo para fora dele.
O dia demorou para passar, estava tudo
escuro lá fora antes mesmo das cinco da tarde; o dia estava quente, nem uma
gota de água caiu do céu, nenhuma nuvem
escondeu o sol. O sol escondeu você? Eu mesmo vou comprar as flores para
enfeitar esses dias todos que parecem domingos.
Caso os conhecesse, escreveria um
romance agora. Ainda, caso soubesse, escreveria algum romance que transcendesse
algum drama meio meloso ou com um final triste: um romance sem final, nem
triste nem feliz. Sem clímax também. Que
somente acontece, como este momento. Estou gerando um desfecho para os dias,
não comprei as flores, você ainda não voltou, ele não está te esperando no
quarto. Quem está com medo, quem tem medo?
Esse momento é do inconsciente, tem sua
lógica. Não a nossa, embora, embora eu fosse dizer algo e tenha esquecido ou
não saiba exatamente o que iria dizer. Meu peito está lotado de angústia, quem saboreia?
Chupem. Estou cortando todos os “t” com muita velocidade e precisão, os cortes estão enormes, uma pauta inteira para cada "T". I’m taking me away from myself. Estou
prestes, também, a colocar mais uma pedra em meu bolso. O dia de hoje pede uma
pedra em cada bolso.
08 de junho de 2014.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
APÓS A MORTE
É exatamente onze horas e alguns minutos
da noite e eu ainda estou perdido na sensação de ontem. Sei bem que não foi tão
exato assim, muito preciso. Também não é nada pontual o que senti ontem, quer
dizer, eu sei, por menores, olhos turvos, o que vi e ouvi, mas ainda não sei minimamente
o que ficou em mim e o que partiu levando-me uma parte. Estou com medo de
morrer, após uns dez anos sem senti-lo, encarando a morte e brincando com ela,
sinto-me assustado, assustadíssimo. E contínuo, pelo menos três vezes durante a
semana, pedindo pra morrer enquanto durmo. Assim: antes de dormir, quando estou
deitado, corpo esticado, olhando para o teto que salpiquei de tinta roxa,
sentindo minhas dores nas costas, fico imaginando morrendo, não o processo do
morrer, só a morte. E acabou, como se tudo simplesmente não tivesse existido. E
fico tremendo todinho, achando que vou morrer mesmo. Ontem eu estava em um
hospital, passei a manhã por lá. Não estava doente até sair de lá. Somatizei todas
as dores que os outros sentiam. Eu simplesmente sabia quem dali iria morrer e
quem iria ficar vivo por mais algum tempo. Alguns que visitei, os que
aparentavam bem, seriam os que já tinham vivido além das expectativas –
guerreiros, iludidos. Eu passando por eles, com o saber sobre o fim de suas
vidas correndo entre meus pensamentos e sem poder dizer nada, aconselhá-los a
correr, que se escondessem. Ah, não. Como eu poderia fazer? Se os médicos, tão
deuses, já decretaram o ponto final, como eu sozinho, sem poder algum, nem divindade
nenhuma, poderia salvar alguém. Eu também não me salvo, sinto tudinho. Estou
com medo de também estar morrendo sem saber que estou, apenas tenho a intuição.
E por isso peço três ou quatro vezes por semana, antes de dormir, para não
acordar. Não acabou, também não sei o que é. Tenho mania de me esconder nas
minhas livres associações, de interpretar-me inconscientemente, sem querer
perceber que o estou sabendo. Bem sei que isso é só pra não ter acesso à
ferida. Acerca do sintoma eu sei, tenho a ferida cutucada. Mas não é só. Acho que
já estou fugindo, falava sobre a morte. Ontem também um motorista de ônibus
morreu. Levou facadas de um assaltante no dia anterior. E esperou até o dia
seguinte. Como se calcula esse tempo? Se é pra morrer, por que não de uma vez? Agora
mesmo, há alguns instantes, eu estava deitado, pensando no que já disse. Aí levantei,
porque não queria ficar deitado esperando morrer. Quero de uma vez. Ou que a
sensação de estar so-bre-vi-ven-do também passe de uma vez. De uma vez, aqui
estou expelindo-a de mim com os dedos, com a mão direita e a esquerda.
Digitando. Mostro sim, a mim: eu vou morrer, pois já estou morrendo.
O que eu quero? Agora eu sei o que eu
quero? Agora você sabe o que eu quero? Eu perguntei se agora você sabe o que eu
quero. Você não vai me responder? Você vai me ignorar? É incrível, né? Eu não
estou de boa.
Assim como?
É
pelo quê então?
Eu não quero conversar sobre.
Se eu morresse num sonho e, sabendo que
estava sonhando, tentasse despertar, mas realmente estivesse morto, todo o corpo
gelado? Do lado, meu espírito vendo minha palidez de longe, observando o que
tinha sido meu corpo magrinho, naquele momento durinho, rindo, rindo, rindo kkkkkkkkkk
k-k-k. Acho que já estou sacaneando a morte. Acho que já estou iniciando novos
dez anos sem expulsá-la, fazendo amizade, enfrentando e conhecendo-a. Todos
caminhamos ao seu encontro.
Fábio Pinheiro
30 de maio de 2014.
Agora acaba de chegar ao dia 31 de
maio de 2014.
sábado, 3 de maio de 2014
Amor de militante
Meu amor, aqui estamos nós, novamente e de novo, fingindo serenidade e sinceridade nas nossas palavras que estão tão vagas, perdidas numa incerteza exacerbada. Estamos como elas, ocos e com medo dessa solidão onde já habitamos; assistimos nossas solidões, que dizer, você assiste a minha e eu a sua e nenhum de nós sabe exatamente o que fazer.
Embora tenhamos saído na hora, perdemos nosso encontro, algo avançou a nossa hora sem avisar. Lembra-se das vezes que saíamos separados, eu do meu cantinho e você do seu, para irmos nos encontrar? Você ia me encontrar pelo caminho que acreditava que eu iria fazer e eu ia ao teu encontro pelo caminho que tinha plena certeza de que você iria trilhar. E por nos conhecermos tanto, dessa miserável forma, nos desencontrávamos. Tirei de cada desencontro algo que ainda não perdi, pudemos conhecer nossa singularidade de tal maneira que nos vemos invadindo um a do outro. Estamos nos descobrindo e não há espaços para nós.
Você dobrou em alguma esquina rápido demais para que eu pudesse ver de qual rua era, sem rastro de fumaça, pobre de mim que tenho tão pouca orientação. Eu entrei em algum beco e lá fiquei preso, você não viu, eu te perdoo, mesmo que não seja necessário. É desejo, escapa da necessidade. E o nosso desejo? E o nosso? E o nosso? Gostaria de não sentir que escapou e deixou só uma necessidade, aquela necessidade de conforto, a presença do medo de passar por algum fim, começar de novo, chutar o pau da barraca, quebrando o graveto sem o qual não se pode construir outra. E se já não nos amamos, somente, solamente, sentimos o medo de chegar ao fim? Oh, baby, baby how was I supposed to know
that something wasn't right here?
Cuidado, frágil: algumas pessoas têm receio de pisar sobre ovos e se machucam pelos passos cuidadosos que dão, medindo cada centímetro para colocar o pé torto em um mísero espaço a fim de não quebrar um ovinho sequer. Nós estamos segurando ovos quebrados em nossas mãos, fazendo um esforço cruel para não deixar escorrer entre os espaços apertados entre os dedos aquela gosminha amarela com banco. Tão fracas ficaram nossas cascas que quebraram às nossas carícias, tão clara ficou nossa gema. Tão banais parece que nos tornamos.
Estão dizendo escondido de você, a mim já disseram, que nosso relacionamento está acabando sem que seja preciso um terminar com o outro, assim, naturalmente, como as folhas caem no outono e a neve em outra estação.
Fizemos algo errado, foi a coisa certa. Não temos o que seguir, e nossas vivências não nos foram ensinadas, how were we supposed to know? Escolhemos a liberdade, o amor corre livre por aí. Solitários. Felizes, talvez, quem pode dizer? Atenciosa foi nossa falta, mandou beijos.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
A água nunca foi tão viva e a boca tão seca
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Mal-estar de um anjo
Ao sair do edifício, o inesperado me tomou. O que antes fora apenas chuva na vidraça, abafado de cortina e aconchego, era na rua a tempestade e a noite. Tudo isso se fizera enquanto eu descera pelo elevador? Dilúvio carioca, sem refúgio possível, Copacabana com água entrando pelas lojas rasas e fechadas, águas grossas de lama até o meio da perna, o pé tateando para encontrar calçadas invisíveis. Até movimento de maré já tinha, onde se juntasse o bastante de água começava a atuar a secreta influência da Lua: já havia fluxo e refluxo de maré. E o pior era o temor ancestral gravado na carne: estou sem abrigo, o mundo me expulsou para o próprio mundo, e eu que só caibo numa casa nunca mais terei casa na vida, esse vestido ensopado sou eu, os cabelos escorridos nunca secarão, e sei que não serei dos escolhidos para a Arca, pois já selecionaram o melhor casal de minha espécie.Pelas esquinas os carros de motor paralisado, e nem sombra de táxi. E a alegria feroz de vários homens finalmente impossibilitados de voltar para casa. A alegria demoníaca dos homens livres ainda mais ameaçava quem só queria casa própria. Andei sem rumo ruas e ruas, mais me arrastava que andava, parar é que era o perigo. De minha desmedida desolação eu só conseguia que ela fosse disfarçada. Alguém, radiante sob uma marquise, disse: que coragem, hein, dona! Não era coragem, era exatamente o medo. Porque tudo estava paralisado, eu que tenho medo do instante em que tudo pare tinha que andar.
E eis que nas águas vejo um táxi. Avançava cuidadosamente, quase centímetro por centímetro, tateando o chão com as rodas. Como é que eu me apoderaria daquele táxi? Aproximei-me. Não podia me dar ao luxo de pedir, lembrei-me de todas as vezes em que, por ter tido a doçura de pedir, não me deram. Contendo o desespero, o que sempre me dá uma aparência de força, disse ao chofer: "o senhor vai me levar para casa! é de noite! tenho filhos pequenos que devem estar assustados com minha demora, é de noite, ouviu?!" Para minha grande surpresa, vai o homem e simplesmente diz que sim. Ainda sem entender, entrei. O carro mal se movia nas ondas lamacentas, mas movia-se - e chegaria. Eu só pensava: eu não valho tanto. Daí a pouco já estava pensando: e eu que não sabia que valia tanto. E daí a pouco era a dona-de-casa de meu táxi, já tomara posse de direito do que gratuitamente me fora dado, e energicamente tomava medidas úteis: torcia cabelos e roupas, tirava os sapatos amolecidos, enxugava o rosto que mais parecia ter chorado. A verdade, sem pudor, é que eu tinha chorado. Muito pouco, e misturando motivos, mas chorado. Depois de arrumar minha casa, encostei-me bem confortável no que era meu, e de minha Arca assisti ao mundo acabar-se.
Uma senhora aproximou-se então do carro. Devagar como este avançava, ela pôde acompanhá-lo agarrada em aflição ao trinco da porta. E literalmente me implorava para compartilhar do táxi. Era tarde demais para mim, e seu itinerário me desviaria de meu caminho. Lembrei-me, porém, de meu desespero de havia cinco minutos, e resolvi que ela não teria o mesmo. Quando eu lhe disse que sim, seu tom de imploração imediatamente cessou, substituído por uma voz extremamente prática: "É, mas espere um pouco, vou até aquela transversal buscar na casa da costureira o embrulho do vestido que deixei lá para não molhar". "Estará ela se aproveitando de mim?", indaguei-me na velha dúvida se devo ou não deixar que se aproveitem de mim. Terminei cedendo. Ela demorou à vontade. E voltou com um enorme embrulho pousado nas mãos estendidas, como se até seu próprio corpo pudesse macular o vestido. Instalou-se totalmente, o que me deixou tímida na minha própria casa.
E começou o meu calvário de anjo - pois a mulher, com sua voz autoritária, já tinha começado a me chamar de anjo. Não poderia ser menos comovente o seu caso: aquela era a noite de uma première e, se não fosse eu, o vestido se estragaria na chuva ou ela se atrasaria e perderia a première. Eu já tivera as minhas premières, e nem as minhas me haviam comovido. "A senhora não sabe o milagre que me aconteceu", contou-me com firmeza. "Comecei a rezar na rua, a rezar ara que Deus me mandasse um anjo que me salvasse, fiz promessa de não comer quase nada amanhã. E Deus me mandou a senhora." Constrangida, remexi-me no banco. Eu era um anjo destinado a proteger premières? a ironia divina me encabulava. Mas a senhora, com toda a força de sua fé prática, e tratava-se de mulher forte, continuava impositivamente a reconhecer o anjo em mim, o que só pouquíssimas pessoas até hoje reconheceram, e sempre com a maior discrição. Tentei sem jeito a leveza de um sarcasmo: "Não me supervalorize, sou apenas um meio de transporte". Enquanto que a ela nem sequer ocorreu compreender-me, eu a contragosto percebia que o argumento na verdade não me isentava: anjos também são meios de transporte. Intimidada, calei-me. Fico muito impressionada com quem grita comigo: a mulher não gritava, mas claramente mandava em mim. Impossibilitada de confrontá-la, refugiei-me num doce cinismo: aquela senhora, que tratava com tanto vigor do próprio êxtase, devia ser mulher habituada a comprar com dinheiro, e na certa terminaria por agradecer ao anjo com um cheque, também levando em conta que a chuva já devia ter lavado toda a minha distinção. Com um pouco mais de confortável cinismo, em silêncio, declarei-lhe que dinheiro seria um meio tão legítimo como qualquer outro de agradecer, já que a moeda dela era mesmo moeda. Ou então - diverti-me eu - bem poderia dar-me em agradecimento o vestido da première, pois o que ela realmente deveria agradecer não era ter um vestido seco, e sim ter sido atingida pela graça, isto é, por mim. Dentro de um cinismo cada vez melhor, pensei: "Cada um tem o anjo que merece, veja que anjo lhe coube: estou cobiçando por pura curiosidade um vestido que nem sequer vi. Agora quero ver como é que sua alma vai se arrumar com a ideia de um anjo interessado em roupas". Parece-me que, no meu orgulho, eu não queria ter sido escolhida para servir de anjo à tolice ardente de uma senhora.
A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar. Conheço bem esse processo do mundo: chamam-me de bondosa, e pelo menos durante algum tempo fico atrapalhada para ser ruim. Comecei também a compreender como os anjos se chateiam: eles servem a tudo. Isso nunca me ocorrera. A menos que eu fosse um anjo muito embaixo na escala dos anjos. Quem sabe, até, eu era só aprendiz de anjo. A alegria satisfeitona daquela senhora começava a me deixar sombria: ela fizera uso exorbitante de mim. Fizera de minha natureza indecisa uma profissão definida, transformara minha espontaneidade em dever, acorrentava-me, a mim, que era anjo, o que a essa altura eu já não podia mais negar, mas anjo livre. Quem sabe, porém, eu só fora mandada ao mundo para aquele instante de utilidade. Era isso, pois, o que eu valia. No táxi, eu não era um anjo decaído: era um anjo que caía em si. Caí em mim e fechei a cara. Um pouco mais e teria dito àquela de quem eu era com tanta revolta o anjo da guarda: faça o obséquio de descer já e imediatamente deste táxi! Mas fiquei calada, aguentando o peso de minhas asas cada vez mais contritas pelo seu enorme embrulho. Ela, a minha protegida, continuava a falar bem de mim, ou melhor, de minha função. Emburrei. A senhora sentiu e calou-se um pouco desarvorada. Já na altura de Viveiros de Castro a hostilidade se declarara muda entre nós.
- Escute, disse-lhe eu de repente, pois minha espontaneidade é faca de dois gumes também para os outros, o táxi vai antes me deixar em casa e depois é que segue com a senhora.
- Mas, disse ela surpreendida e em começo de indignação, depois vou ter que dar uma volta enorme e vou me atrasar! é só um pequeno desvio para me deixar em casa!
- Pois é, respondi seca. Mas não posso entrar pelo desvio.
- Eu pago tudo! insultou-me ela com a mesma moeda com que teria se lembrado de me agradecer.
- Eu é que pago tudo, insultei-a.
Ao saltar do táxi, assim como quem não quer nada, tive o cuidado de esquecer no banco as minhas asas dobradas. Saltei com a profunda falta de educação que me tem salvo de abismos angelicais. Livre de asas, com a grande rabanada de uma cauda invisível e com a altivez que só tenho quando pára de chover, atravessei como uma rainha os largos umbrais do Edifício Visconde de Pelotas.
Clarice Lispector
LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Pré-fuga
Fugi,
embora ame o que é adverso, embora meu corpo tenha permanecido paradinho por lá.
Eu não morri, adianto que essa não é uma experiência após a vida. Sabe quando
você nunca esteve no lugar onde estava? Não é preciso empatia para saber. Eu fugi
por ter caído na transferência. Na verdade, está além disso, eu fugi por culpa
pelo abuso que sentia de alguém que não era o alguém do meu abuso, mas que eu
jogava todo o sentir em cima dele. Os dois estavam se olhando, cara a cara,
como se um estivesse na frente do espelho e o outro fosse o reflexo do
futuro. Isso, eu fugi da projeção
futurística do outro, e agora não os suporto. Foi a medida mais apropriada, com
as palavras grifadas no papel. Agorinha estou com raiva da fuga, como se houvesse
uma forma de correr do sintoma! Eu não sou covarde, só não estava dando o que
era de César ao próprio César. Eu tinha muito a dizer, mas a palavra me escapou
sem que eu tivesse mordido a isca.
sábado, 28 de dezembro de 2013
LUA EM ESCORPIÃO
A lua hoje entrou em escorpião e vai
permanecer por lá até domingo. Como se já não bastasse toda a desgraça que
praguejo com gosto por não querê-la, embora agarre o que é ruim com força, a
lua me presenteia com escorpiões. Dentre os males, a felicidade de não ser de
peixes.
Na verdade, eu nem sabia desse
movimento lunar. Depois que soube, também descobri que escorpião traria as
trevas para minhas emoções. Soube assim: estava reclamando para um amigo sobre
o fato de eu estar aparentemente normal emocionalmente, apesar de guardar um
pouco mais de desânimo que o habitual; até falamos dos personagens que nos
identificamos nos filmes, enalteci minha amadíssima Justine. Depois ele olha
para mim, supôs que olhava, porque eu não o encarava para saber se de fato
estava, e diz, sorrindo, que tudo é culpa da lua em escorpião.
Contestei dizendo que minha lua era em
aquário, mas ele explicou que a lua, o próprio satélite, estava entrando em
escorpião e que isso influenciaria as emoções de todos. Eu: ahhh, que desgraça,
como se eu já não tivesse tido o bastante – mas eu sabia que esse bastante era
meu normal, porém, como hobbie, queria reclamar do que fosse e do que não
fosse.
Vesti-me com o fulgor, humildando o meu saber de
si. Outro amigo ligou-me e sem mais nem menos gritou “você está chato
e triste, que-que foi?”. Nem acreditou que era culpa da lua em escorpião.
Mandei-o se danar, porque iria estar muito ocupado desenhando constelações, ou
mesmo faria um ritual para que uma levíssima chuva caísse, e engoliria o veneno que
escorregaria da cauda da constelação vigente. Eu chorei.
Estou triste e se me perguntarem por
quais motivos, sem timidez, colocarei a culpa na lua. Apaziguarei minhas
angústias fingindo que esqueço de todos os motivos, que sequer lembro. Nietzsche
deve ter dito algo como ”se queres elevar-te,
exercita a arte de esquecer”.
Das minhas amnésias, nunca esqueço o
que forcei que lembrassem. Aprendi a elevar meus desânimos e dores para crescer
meu ser - acostumar-se à dor dá a impressão de que não dói.
Minhas emoções são contraditórias e
inexistentes. Os sentimentos ainda não nomeados.
Não quero mais falar, deixarei que a
Lua, caso se livre do ferrão de escorpião, expresse que.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
NARALON
There was a time I
was one of a kind
Lost in the world out
of me myself and I
Was lonely then like
an alien
I tried but I never
figured it out
Why I always felt
like a stranger in a crowd
(Alien: Britney
Spears)
O dia estava chuvoso,
caíam as nuvens lá fora, ou o céu estava permitindo ser tocado intimamente.
Ele, sentado em frente à janela, olhava atentamente para os pingos da chuva
refletidos nos poços de lama lá fora. Vez ou outra abria a boca para sentir o
gosto de algumas gotas que batiam na janela de seu quarto e então se espalhavam
e, como se fossem conduzidas por uma força cósmica do universo ou qualquer
outra força sobrenatural, chegavam a sua boca.
Ele, que dormira tão
bem, que nem teve sonhos, pois a vida parecia-lhe desvendar-se, estava
imobilizado dentro de seus pensamentos avulsos, não conseguia se prender ao
mais frívolo pensamento fluído – depois de tanto tempo treinando, tinha
conseguido tal proeza. Abriu alguns milímetros a boca para receber outra gota
de água perdida.
Noite passada, antes de
dormir, sentiu-se fatigado. E de tanta fatiga acabou dormindo. O olhar
atentamente para a “vida que parece desvendar-se” é algo assustador. Até se
questionou por que sempre esperam que a vida seja sempre a mais bela paz de
espírito ou qualquer determinação para uma paz interior; enganam-se. A verdade
é que a vida assusta, ainda mais quando vai se desvendando – como se alguém
soubesse sobre os detalhes que se escondem por entre as letras de v-i-d-a e
corresse para longe delas, porque tocar a vida nos primeiros instantes pode ter
mais estranhamento do que saber sobre a única previsão do destino que se
esconde nos espaços das letras contrárias: m-o-r-t-e.
Uma nuvem carregada ousou
ainda invadir seu quarto, pairando sob o teto, um céu particular para ele que
estava acostumado com seu santuário dedicado à Oxum. Se inundasse o piso,
subiria na cama para procurar conforto ou coragem antes de mergulhar.
Sentiu a garganta ainda
seca e abriu mais a boca, agora com mais sede, como se estivesse diante de uma
água que é ofertada e não pode ser bebida. A água lhe invadiu, mas não tinha
sede, não queria beber água, pois estava queimando.
Fixou o olhar em um
ponto secreto de uma nuvem e, dentro dele, procurava formas. Dentro de si,
faziam outras. Ele, que nunca soubera muito bem dizer o que sentia, arriscava
dizer que agora sentia fome, porém não gostaria de comer e quebrar com essa
magnitude. Perplexo, moveu o olhar, pois aquela nuvem já tinha fugido há um
longo tempo, nem mesmo a chuva pingava. Restava só um céu nublado às quinze da
tarde, e ele continuava com sede e com fome, mas não quis levantar de onde
estava.
Às pessoas que bateram
na porta, disse somente que gostaria de ficar sozinho e que não precisavam ficar
incomodados, estava bem, contente pela preocupação. Também disse que se sentia
cheio, mas que se quisessem poderiam deixar um pouco de café que depois ele
tomaria com leite e um pedaço de bolo.
Como quem faz algo sem
saber que está fazendo, despretensiosamente inconsciente, levantou da cadeira e
foi até o seu pequeno aparelho de som antigo, uma vitrola, e colocou um disco
para tocar. Aproveitou, também, para comer o resto da barra de chocolate
amargo.
Lembrou que tinha
incensos guardados, então pegou quatro de essências diferentes: arruda, sal
grosso, morango e alfazema. Esperou que todos estivessem fazendo uma fumaça
divina e dançou nela, sob os cheiros confluídos; juntou a sua própria essência,
dopou-se.
Voltou para a janela
dançando cantos à Mãe D’água, encostou o cotovelo na beirada e a mão no queixo,
inclinando um pouco a cabeça para o alto. Passou alguns minutos assim e foi
acender mais alguns incensos. Os de morangos tinham acabado.
Sentou em sua cadeira e
ficou assobiando.
De repente, percebeu a
lua tinha invadido o seu quarto. Abriu a boca seca e ficou a esperar que outro
pingo ousado chegasse aos seus lábios. E começou a chover forte. Os eventos
sobrenaturais misturavam-se e ele já não sabia mais em que lenda ou vida real
vivia. Ele começava a ficar saciado da sede, então colocou mais um pedaço de
chocolate amargo na boca e a fechou como um túmulo egípcio cheio de surpresas a
serem encontrados e que não serão.
Cansado, colocou seus
pés no chão, primeiro as pontas dos dedos e depois foi encostando todo o solado
no chão frio, sentindo a ausência de calor subir até o joelho, até o nível que
seu quarto tinha inundado. Tirou seu pijama e jogou em cima da cama. Pulou a
janela, só de roupa íntima, porque não queria mais estar rodeado pelo seco e
infecundo. Como se tivesse um túnel com a mais bela luz brilhante no final, a
pureza do sol, ele ficou olhando, sentindo aqueles pingos desordenados caindo
das nuvens que estavam passando rapidamente.
Ainda estava sob o transe
da fumaça, ou porque simplesmente gostava de imaginar. Cada prédio tornava-se
uma árvore, todas elas formavam um corredor por onde ele saiu correndo para
acompanhar as nuvens que iam fecundar outro lugar. Perigosas nuvens que
enfrentavam os céus deslizando sobre ele até chegar ao ponto de se tornarem acariciáveis.
E de longe, uma
distância incalculável, vindo do final da rua, até para quem estava vagando
por lá não conseguia enxergar, um assobio ecoava. Como se alguém montado à
cavalo fugisse dentro da melodia, repetindo I’m
not alone, I’m not alone, I’m not
alone.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
PISCADELA
Então, doutor, vou falar exatamente como aconteceu. Mas fique o senhor sabendo que até já tentei contar algumas vezes, mesmo assim não me acalmo. Não gosto de ficar calma em uma situação dessas, quero uma boa confusão porque sou apaixonada por DR’s – discutir relação, se o senhor não sabe – como costumam falar. Não é bem que eu procure uma confusão, ela aparece. E André me dá motivos para isso: o desgraçado sabe que sou pouco ciumenta e ainda fica fazendo gracinhas e charminho por aí. Pior, ainda tem a cara de pau de dizer que sou fofa com raivinha, embora também fique emburrado quando lhe digo umas boas verdades – se quer uma puta, termine comigo primeiro porque não quero sair como a vaca chifrada da relação.
Ontem foi assim: saímos para um jantar elegante na casa de um amigo que ele arranjou pela empresa em que trabalha. Eu me arrumei toda porque queria que sentissem inveja da esposa que ele tem – e porque queria mostrar para todas as velhas solteiras de lá que esse homem já tinha uma mulher e que ela é bonita e gostosa. Lá encontramos um casal de amigos e sentamos em uma mesa para conversarmos.
Enquanto compartilhava meus comentários sobre a festa e os convidados com minha querida amiga Joyce, André conversava com Antônio. Até esse momento estava tudo bem, pois eu não estava prestando muita atenção no que André fazia: ou avaliava o evento ou tomava conta de André. E pela minha inocente distração, André aproveitou para avaliar as convidadas do evento.
Antônio levantou para conversar com outros convidados e André permaneceu na mesa com parte do rosto virado para a multidão, quase de costas pra mim. Eu não ia falar nada, porque não queria dar uma de deselegante na frente de Joyce – sei por altos que ela é uma fofoqueira sem rédeas, aumentaria qualquer pequena observação que eu tecesse a respeito do comportamento de meu marido.
Disfarcei a observação que fazia de André, segura de que não deixaria nada passar em branco. E não deixei mesmo. Mey, vou pegar uma taça de champanha, já retorno, disse-me o descarado. Não vou mentir que se fiz o que fiz foi porque eu estava agoniada. O incomodo subiu a minha cabeça e derrubei o barraco, o que seria melhor do que um par de chifres subir à cabeça.
André caminhou em direção ao garçom que servia umas jovens – eram até bonitas, porém, por estarem apenas desabrochando por volta dos seus 23 anos, não tinham todo o néctar que uma mulher como eu tenho para oferecer. Uma taça na mão e um charme no rosto: André começou a conversar com aquelas moças (não sei que interesse, além de gaiatices, poderia ter). Aos meus olhos, ele estava querendo se roçar nas pernas das moças mais que um gato carente em busca de carinho, ou por puro alívio do cio.
A essa altura, Joyce já sabia o que estava acontecendo e estava até calada para me observar com mais atenção: essa velha, por não ter mais o que fazer, fica esperando por qualquer nova história. Ela ainda teve o afoito de dizer-me: que bonitas aquelas moças que estão conversando com André; de onde ele as conhece? Falou com tanta malícia que a boca velha deve ter se enchido de veneno – talvez não muito, por usar com tanta frequência.
Joyce e eu estávamos de cumplicidade, pois bem sei que se ela visse alguma coisa que meus olhos estrábicos ousassem sucumbir ao meu medo de ver o que não queria, ela iria me avisar com uma satisfação bajuladora de uma boa serva.
Então aconteceu: André piscou o olho pra uma loira. Eu, que não sou besta, levantei logo da cadeira deixando Joyce soltando suas malícias, e fui em direção ao grupo. E fiz confusão: gritei tantas indecências que apavorei a todos. Sou senhora decente, mas que nem por isso deixo de falar palavrões, ainda mais quando afastam as mágoas da garganta; e os urubus da minha carniça.
Não vou lhe contar o que aconteceu com detalhes porque já estou mais calma, sabe? Embora ainda esteja magoada e sentida com André. Sou uma pessoa exigente e olhadelas para o lado não tolero. Aos meus sessenta anos e uma coisa dessas vêm me acontecer?! Ah não, doutor, sou mulher vivida e sei o que fazer. Mas vou chegar ao ponto que me trouxe aqui.
Depois que disse tudo que pudesse constranger o grupo, e até a mim mesma, saí de forma drástica e dramática de perto deles, porque tinha que fazer com que André viesse correndo atrás de mim. Na pressa, bati meu dedo mindinho na perna de uma cadeira. Foi uma dor tão desgraçada que nem vou lhe contar. Imagina como são os ossos de uma mulher vivida como eu!
Comecei a chorar, o que não estava nos meus planos – acho penoso ver velha chorando, mas não admito muito isso para mim porque não me vejo velha. Velhice é só estado de espírito, as rugas são estados do tempo. Então André me segurou firme e, carinhosamente, conduziu-me pra casa. Até gostei disso, mas também não disse.
Tive uma noite de sono horrível, viu? Eu me mexia e o dedo doía. Pensei que tinha só machucado, mas Dedis disse que era melhor procurar um médico porque eu poderia ter quebrado. Tão atencioso meu marido! O senhor acredita que ele me explicou tudo direitinho? Dedis é carente demais e como eu não estava dando atenção para ele, pois conversava com Joyce, ele virou a cabeça pros lados para ver se conseguia chamar minha atenção. Percebeu que não deixei de conversar com minha colega e levantou-se para fazer ciúmes. Olhe só que mimado! Acreditei, afinal Dedis sempre diz que só tem olhos para mim; e é bem verdade que ele também pisca com muita frequência.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
AMOR SECRETO
Ela tinha nome de lua
em inglês. A primeira vez que a vi eu tinha por volta dos treze ou catorze
anos, auge de tanto desejo e tanto hormônio e tanto fogo. Não era mais virgem,
mas também não me sentia como se não fosse, tinha sede e mais sede de sexo como
se nunca o tivesse feito, porque, de fato, ainda não tinha considerado como se
tivesse fodido. Eu era virgem, embora já tivesse trepado. Mas isso não vem ao
caso. O nome, como disse, era Moon, nome artístico, de atriz.
Lembro bem da primeira
vez que a vi, na casa de uma amiga de minha mãe. Vi sem poder ver; proibida para
mim, vi toda sua nudez. E um cara metendo em todos os seus buracos. Desde então,
sempre que possível, via Moon sendo tomada por aquele cara – querendo fazer
parte daquilo. Não sei quantas vezes eu vi, mas acredito que muitas vezes em um
período de um ano, até eu substituí-la ou parar de ver por me sentir culpado,
essas coisas que parecem tão fortes na adolescência.
Moon veio à cabeça
hoje, senti falta de quando me masturbava olhando para aquele pau grosso
entrando em sua vagina, ou em seu ânus. Até invejava o cara. Ela não era
bonita, mas tinha algo que atraía, estava além da sensualidade que vendia. Hoje,
como já não tinha mais como vê-la da forma como antes, procurei sua carreira
pela internet. Então tomei um susto.
Moon morreu dois anos
atrás, não tive coragem de procurar a causa de sua morte. Fiquei tão chocado
que não consegui me masturbar ao ver seus filmes, nem mesmo aquele que vi pela
primeira vez. Como se algo dentro de mim também estivesse morrido, embora
acredite em um movimento inverso.
Comecei a ter
curiosidade para saber a mulher que era Lindsay – de seu personagem, sabia o
necessário, que dava por dinheiro e prazer. Mas não tive coragem para pesquisar
sobre a Lindsay, não tenho. Se de fato morreu, também não quero saber. Acho
mesmo é que fiquei impressionado ou me sentindo culpado por querer me masturbar
vendo uma mulher que já foi enterrada.
Aqueles sentimentos de
culpa da adolescência juntando-se com a palavra necrofilia. Será que eu se eu
um dia tivesse conhecido pessoalmente Moon eu teria tido meu momento de
Solfieri? Masturbei-me
algumas horas depois vendo o mesmo vídeo de Moon que vi pela primeira vez. Ora
sentia nojo da necrofilia em meus pensamentos, ora sentia-me só um adolescente
explodindo de vontade de trepar.
De um momento para o
outro, depois da goza, tudo fica tão aguçado. Talvez eu não estivesse com vontade de ver a atriz dando, talvez
eu só quisesse ver o pau do ator, sabe-se lá. Tive nostalgia de algo que não me
pertenceu: Moon pode até ter morrido, mas eu estou aqui inteirinho. E cheio de intenções.
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