É exatamente onze horas e alguns minutos
da noite e eu ainda estou perdido na sensação de ontem. Sei bem que não foi tão
exato assim, muito preciso. Também não é nada pontual o que senti ontem, quer
dizer, eu sei, por menores, olhos turvos, o que vi e ouvi, mas ainda não sei minimamente
o que ficou em mim e o que partiu levando-me uma parte. Estou com medo de
morrer, após uns dez anos sem senti-lo, encarando a morte e brincando com ela,
sinto-me assustado, assustadíssimo. E contínuo, pelo menos três vezes durante a
semana, pedindo pra morrer enquanto durmo. Assim: antes de dormir, quando estou
deitado, corpo esticado, olhando para o teto que salpiquei de tinta roxa,
sentindo minhas dores nas costas, fico imaginando morrendo, não o processo do
morrer, só a morte. E acabou, como se tudo simplesmente não tivesse existido. E
fico tremendo todinho, achando que vou morrer mesmo. Ontem eu estava em um
hospital, passei a manhã por lá. Não estava doente até sair de lá. Somatizei todas
as dores que os outros sentiam. Eu simplesmente sabia quem dali iria morrer e
quem iria ficar vivo por mais algum tempo. Alguns que visitei, os que
aparentavam bem, seriam os que já tinham vivido além das expectativas –
guerreiros, iludidos. Eu passando por eles, com o saber sobre o fim de suas
vidas correndo entre meus pensamentos e sem poder dizer nada, aconselhá-los a
correr, que se escondessem. Ah, não. Como eu poderia fazer? Se os médicos, tão
deuses, já decretaram o ponto final, como eu sozinho, sem poder algum, nem divindade
nenhuma, poderia salvar alguém. Eu também não me salvo, sinto tudinho. Estou
com medo de também estar morrendo sem saber que estou, apenas tenho a intuição.
E por isso peço três ou quatro vezes por semana, antes de dormir, para não
acordar. Não acabou, também não sei o que é. Tenho mania de me esconder nas
minhas livres associações, de interpretar-me inconscientemente, sem querer
perceber que o estou sabendo. Bem sei que isso é só pra não ter acesso à
ferida. Acerca do sintoma eu sei, tenho a ferida cutucada. Mas não é só. Acho que
já estou fugindo, falava sobre a morte. Ontem também um motorista de ônibus
morreu. Levou facadas de um assaltante no dia anterior. E esperou até o dia
seguinte. Como se calcula esse tempo? Se é pra morrer, por que não de uma vez? Agora
mesmo, há alguns instantes, eu estava deitado, pensando no que já disse. Aí levantei,
porque não queria ficar deitado esperando morrer. Quero de uma vez. Ou que a
sensação de estar so-bre-vi-ven-do também passe de uma vez. De uma vez, aqui
estou expelindo-a de mim com os dedos, com a mão direita e a esquerda.
Digitando. Mostro sim, a mim: eu vou morrer, pois já estou morrendo.
O que eu quero? Agora eu sei o que eu
quero? Agora você sabe o que eu quero? Eu perguntei se agora você sabe o que eu
quero. Você não vai me responder? Você vai me ignorar? É incrível, né? Eu não
estou de boa.
Assim como?
É
pelo quê então?
Eu não quero conversar sobre.
Se eu morresse num sonho e, sabendo que
estava sonhando, tentasse despertar, mas realmente estivesse morto, todo o corpo
gelado? Do lado, meu espírito vendo minha palidez de longe, observando o que
tinha sido meu corpo magrinho, naquele momento durinho, rindo, rindo, rindo kkkkkkkkkk
k-k-k. Acho que já estou sacaneando a morte. Acho que já estou iniciando novos
dez anos sem expulsá-la, fazendo amizade, enfrentando e conhecendo-a. Todos
caminhamos ao seu encontro.
Fábio Pinheiro
30 de maio de 2014.
Agora acaba de chegar ao dia 31 de
maio de 2014.
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