sexta-feira, 30 de maio de 2014

APÓS A MORTE


É exatamente onze horas e alguns minutos da noite e eu ainda estou perdido na sensação de ontem. Sei bem que não foi tão exato assim, muito preciso. Também não é nada pontual o que senti ontem, quer dizer, eu sei, por menores, olhos turvos, o que vi e ouvi, mas ainda não sei minimamente o que ficou em mim e o que partiu levando-me uma parte. Estou com medo de morrer, após uns dez anos sem senti-lo, encarando a morte e brincando com ela, sinto-me assustado, assustadíssimo. E contínuo, pelo menos três vezes durante a semana, pedindo pra morrer enquanto durmo. Assim: antes de dormir, quando estou deitado, corpo esticado, olhando para o teto que salpiquei de tinta roxa, sentindo minhas dores nas costas, fico imaginando morrendo, não o processo do morrer, só a morte. E acabou, como se tudo simplesmente não tivesse existido. E fico tremendo todinho, achando que vou morrer mesmo. Ontem eu estava em um hospital, passei a manhã por lá. Não estava doente até sair de lá. Somatizei todas as dores que os outros sentiam. Eu simplesmente sabia quem dali iria morrer e quem iria ficar vivo por mais algum tempo. Alguns que visitei, os que aparentavam bem, seriam os que já tinham vivido além das expectativas – guerreiros, iludidos. Eu passando por eles, com o saber sobre o fim de suas vidas correndo entre meus pensamentos e sem poder dizer nada, aconselhá-los a correr, que se escondessem. Ah, não. Como eu poderia fazer? Se os médicos, tão deuses, já decretaram o ponto final, como eu sozinho, sem poder algum, nem divindade nenhuma, poderia salvar alguém. Eu também não me salvo, sinto tudinho. Estou com medo de também estar morrendo sem saber que estou, apenas tenho a intuição. E por isso peço três ou quatro vezes por semana, antes de dormir, para não acordar. Não acabou, também não sei o que é. Tenho mania de me esconder nas minhas livres associações, de interpretar-me inconscientemente, sem querer perceber que o estou sabendo. Bem sei que isso é só pra não ter acesso à ferida. Acerca do sintoma eu sei, tenho a ferida cutucada. Mas não é só. Acho que já estou fugindo, falava sobre a morte. Ontem também um motorista de ônibus morreu. Levou facadas de um assaltante no dia anterior. E esperou até o dia seguinte. Como se calcula esse tempo? Se é pra morrer, por que não de uma vez? Agora mesmo, há alguns instantes, eu estava deitado, pensando no que já disse. Aí levantei, porque não queria ficar deitado esperando morrer. Quero de uma vez. Ou que a sensação de estar so-bre-vi-ven-do também passe de uma vez. De uma vez, aqui estou expelindo-a de mim com os dedos, com a mão direita e a esquerda. Digitando. Mostro sim, a mim: eu vou morrer, pois já estou morrendo.
O que eu quero? Agora eu sei o que eu quero? Agora você sabe o que eu quero? Eu perguntei se agora você sabe o que eu quero. Você não vai me responder? Você vai me ignorar? É incrível, né? Eu não estou de boa.
Assim como?
É pelo quê então?
Eu não quero conversar sobre.
Se eu morresse num sonho e, sabendo que estava sonhando, tentasse despertar, mas realmente estivesse morto, todo o corpo gelado? Do lado, meu espírito vendo minha palidez de longe, observando o que tinha sido meu corpo magrinho, naquele momento durinho, rindo, rindo, rindo kkkkkkkkkk k-k-k. Acho que já estou sacaneando a morte. Acho que já estou iniciando novos dez anos sem expulsá-la, fazendo amizade, enfrentando e conhecendo-a. Todos caminhamos ao seu encontro.
Fábio Pinheiro
30 de maio de 2014.

Agora acaba de chegar ao dia 31 de maio de 2014.

Nenhum comentário:

Postar um comentário