sábado, 7 de março de 2015

PARA QUEM NÃO SE RECONHECE BATATA

Aconteceu nesses dias, mas só agora os estalos impulsionaram o querer falar. E eu somente falo com intimidade quando escrevo; comunico-me melhor e sou mais compreensível assim. É o seguinte, disseram que eu estava atrapalhando o desenvolvimento de um trabalho, só falava besteiras – daí constato que me comunico melhor escrevendo.
De início, senti-me levemente incomodado. Senti também como se um soco tivesse me atingido por dentro, perto da minha ferida no estômago. Obviamente, nada disse, calei-me por dois segundos, logo depois continuei eu-me, obviamente afetado. Obviamente, eu deveria ter dito algo contra aquele veredicto, defendendo-me, talvez. Nada fiz, porém não me foi tão obviamente sabido o por quê. Então outros pequenos estalos foram me ocorrendo durante o resto da tarde e culminaram no estalo maior que é este impulso de escrever.
Pois bem, vou falar o que aconteceu, não exatamente como, mas foi o me que aconteceu – de algum modo as pessoas sensíveis compreendem o que acontece a outra pessoa, pois elas também sabem como acontece com elas.
Antes de eu falar minhas besteiras e atrapalhar o desenvolvimento do trabalho, três pessoas e eu falávamos sobre saúde mental e arte – parece simples, mas é difícil. Todos falavam e falavam sobre ideias com a finalidade – fi-na-li-da-de – de estruturar uma apresentação para o tal trabalho que atrapalhei o desenvolvimento. Eu falava e falava. Acontece, porém, que eu falava e falava como louco que, às vezes, sou agraciado em ser. E tão logo falar e falar não me foi mais permitido! Não recordo bem o que falei, só que falei e falei. Para ser exato, não lembro daquele momento, como se não fosse possível saber o que é liberdade. Porém lembro com clareza e precisão do corte.
            – macho, tu só fala besteira, só faz atrapalhar...
Antes de ouvir o resto, eu já observava o Falante, que baixou a cabeça (acho que se constrange quando fala). Penso tenho olhinhos de coruja.
O corte foi feito, fim de arte. Assim escorreu a experiência que, como já disse, vez ou outra, tenho. Daí também compreendi que não falávamos de saúde mental, muito menos de arte.
De volta à normalidade, sem atrapalhar o desenvolvimento do trabalhar com besteiras, percebi que falávamos do oposto ao normal, da saúde mental como promoção da salvação para aqueles que são o antônimo de normal, o oposto de nós, os são – agora já estava incluso na conversa.
A loucura anunciada era a mesma que deveria ser cortada, aquilo que não é de nossa compreensão, aquilo que deve ser retirado por atrapalhar o desenvolvimento do que é passível de ser dito com clareza e precisa. A loucura não é comum a todos.
Boa parte guardo para mim, a experiência era minha, o corte também foi para mim. Tudo isso aconteceu, mas o que estalou e conduziu-me ao impulso foi o Falante.
O Falante poderia ter sido qualquer um, mas foi aquele que mais se aproxima do conhecimento da loucura. Talvez se aproxime por exclusão, afastando-se enquanto conhece.
A expressão do Falante é o que o afasta da experiência da loucura, não da loucura de loucos, mas das loucuras do ser. Ele não pode se deixar ser nem os outros podem ser tanto com ele.
Ele fala como se soubesse o que ninguém sabe, chocando com a novidade (que muitas vezes é de conhecimento de todos, mas sem a necessidade de ser anunciado) e impondo respeito. Respeito não por ser, mas por ter a luz para a ignorância. Ele intelectualiza a expressão de viver de forma dura. Dói quando se olha: daqui, nota-se o extremo, o outro lado de quem passou por muita coisa e somente carrega o fato consigo, ficando distante do que aconteceu e ninguém disse. O falante não gosta das palavras organizadas de forma poética, da forma eufêmica de falar. Também não gosta da beleza da simplicidade e do otimismo que é ridicularizado e pouca gente acredita. Ele corta tudo isso que sabe.
Esses estalos vinham acontecendo há alguns dias, estalava quando os escritores pau no cu o assombravam com dizeres sobre a potencialidade de se desenvolver nas adversidades, dizeres sobre as potencialidades das batatas. Quem estuda botânica fala que essas batatas passaram por algum processo de Fotomorfogénese, em que plantas, no escuro, crescem estioladas. Para os escritores pau no cu isso é a tendência à atualização que toda coisa viva tem. Assusta-o tanto otimismo fajuto.
Eu, que acredito (às vezes de forma jocosa) na poesia que há na organização e no vácuo de uma palavra para outra e que também acredito no potencial das batatas, enxergo o Falante como um broto. Um pequeno e estiolado broto de batata que também gosta das palavras. Expressa-as com medo, por meio de cortes, que também lhe acertam e o afasta daquilo de ser-no-mundo.
Priva-se agora por conta própria daquilo que foi.
E minhas besteiras algo lhe causaram, por que não? Desconforto no pecador que gosta de pecar e não compreende por que toda a burrice que lhe é dita incomoda, logo nele que não acredita em pecados, mas sente-se ameaçado.
Estalou-me tantas outras coisas que não vou escrever por amor a mim e a todos no mundo, também amor por às batatas. Também por salvar o Falante da minha maldição.
Eu não tenho pretensões, não embelezo as palavras, apenas uso-as por conhecer o gosto que elas têm me dado. Resta-me ainda descobrir o meu próprio incômodo, que contribuiu para tantos estalos.
Eu deixo-o ser.
         

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