quarta-feira, 26 de novembro de 2014

CARTAS ANÔNIMAS - Carta nº X

Heloíse,

Quaisquer que sejam as reflexões sobre os motivos que a conduziram até ao que amargamente vivemos agora, peço-lhe que faça um esforço para resguardá-las. Não estou pedindo para que você as contenha, esqueça-as ou não as sinta como são. Estou pedindo para que as guarde de mim por um tempo. Peço que seja paciente por uma semana. Estou inteiramente certo de que não poderei aguentar seu desabafo agora. Sim, Heloíse, eu sei bem, compreendo seus motivos, pois os percebi por meio do meu jeito de ser. Eu os reconheço em mim e não consegui fazer nada para que não lhe afetassem. Embora eu tenha tamanha consciência, sou absolutamente fraco. Talvez seja pela minha fraqueza, mas porque você que é mais forte, Heloíse; e nem por isso quis ficar. Minha estrutura não aguentaria ouvir de você o que não consegui reelaborar para fazer com que quisesse ficar aqui. Não vou pedir para que volte, ou para que não parta para mais além de onde já está (mesmo que eu cultive esperanças de que uma luz possa atravessar essa hora mais escura, esse momento que nos deixou cegos). Eu, por simples egoísmo de querer me proteger, não posso lhe dar a palavra... Por favor, não esqueça o que tem a me dizer, mas não o faça agora. Escreva uma carta para me enviar adiante, para que assim não se sinta sufocada... Veja só, estou extremamente afetado com a proximidade da consciência sobre o que estou escrevendo; e não posso mais me alongar nestas linhas. Mais uma vez: por favor, permita-me ser mais grato a sua nobreza, pois sei que compreenderá que eu não estou fugindo, apenas fortalecendo meus alicerceies para suportar todo o peso que há de vir. Apenas mais sete ou oito dias.

Sinceramente, 

A.R

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