There was a time I
was one of a kind
Lost in the world out
of me myself and I
Was lonely then like
an alien
I tried but I never
figured it out
Why I always felt
like a stranger in a crowd
(Alien: Britney
Spears)
O dia estava chuvoso,
caíam as nuvens lá fora, ou o céu estava permitindo ser tocado intimamente.
Ele, sentado em frente à janela, olhava atentamente para os pingos da chuva
refletidos nos poços de lama lá fora. Vez ou outra abria a boca para sentir o
gosto de algumas gotas que batiam na janela de seu quarto e então se espalhavam
e, como se fossem conduzidas por uma força cósmica do universo ou qualquer
outra força sobrenatural, chegavam a sua boca.
Ele, que dormira tão
bem, que nem teve sonhos, pois a vida parecia-lhe desvendar-se, estava
imobilizado dentro de seus pensamentos avulsos, não conseguia se prender ao
mais frívolo pensamento fluído – depois de tanto tempo treinando, tinha
conseguido tal proeza. Abriu alguns milímetros a boca para receber outra gota
de água perdida.
Noite passada, antes de
dormir, sentiu-se fatigado. E de tanta fatiga acabou dormindo. O olhar
atentamente para a “vida que parece desvendar-se” é algo assustador. Até se
questionou por que sempre esperam que a vida seja sempre a mais bela paz de
espírito ou qualquer determinação para uma paz interior; enganam-se. A verdade
é que a vida assusta, ainda mais quando vai se desvendando – como se alguém
soubesse sobre os detalhes que se escondem por entre as letras de v-i-d-a e
corresse para longe delas, porque tocar a vida nos primeiros instantes pode ter
mais estranhamento do que saber sobre a única previsão do destino que se
esconde nos espaços das letras contrárias: m-o-r-t-e.
Uma nuvem carregada ousou
ainda invadir seu quarto, pairando sob o teto, um céu particular para ele que
estava acostumado com seu santuário dedicado à Oxum. Se inundasse o piso,
subiria na cama para procurar conforto ou coragem antes de mergulhar.
Sentiu a garganta ainda
seca e abriu mais a boca, agora com mais sede, como se estivesse diante de uma
água que é ofertada e não pode ser bebida. A água lhe invadiu, mas não tinha
sede, não queria beber água, pois estava queimando.
Fixou o olhar em um
ponto secreto de uma nuvem e, dentro dele, procurava formas. Dentro de si,
faziam outras. Ele, que nunca soubera muito bem dizer o que sentia, arriscava
dizer que agora sentia fome, porém não gostaria de comer e quebrar com essa
magnitude. Perplexo, moveu o olhar, pois aquela nuvem já tinha fugido há um
longo tempo, nem mesmo a chuva pingava. Restava só um céu nublado às quinze da
tarde, e ele continuava com sede e com fome, mas não quis levantar de onde
estava.
Às pessoas que bateram
na porta, disse somente que gostaria de ficar sozinho e que não precisavam ficar
incomodados, estava bem, contente pela preocupação. Também disse que se sentia
cheio, mas que se quisessem poderiam deixar um pouco de café que depois ele
tomaria com leite e um pedaço de bolo.
Como quem faz algo sem
saber que está fazendo, despretensiosamente inconsciente, levantou da cadeira e
foi até o seu pequeno aparelho de som antigo, uma vitrola, e colocou um disco
para tocar. Aproveitou, também, para comer o resto da barra de chocolate
amargo.
Lembrou que tinha
incensos guardados, então pegou quatro de essências diferentes: arruda, sal
grosso, morango e alfazema. Esperou que todos estivessem fazendo uma fumaça
divina e dançou nela, sob os cheiros confluídos; juntou a sua própria essência,
dopou-se.
Voltou para a janela
dançando cantos à Mãe D’água, encostou o cotovelo na beirada e a mão no queixo,
inclinando um pouco a cabeça para o alto. Passou alguns minutos assim e foi
acender mais alguns incensos. Os de morangos tinham acabado.
Sentou em sua cadeira e
ficou assobiando.
De repente, percebeu a
lua tinha invadido o seu quarto. Abriu a boca seca e ficou a esperar que outro
pingo ousado chegasse aos seus lábios. E começou a chover forte. Os eventos
sobrenaturais misturavam-se e ele já não sabia mais em que lenda ou vida real
vivia. Ele começava a ficar saciado da sede, então colocou mais um pedaço de
chocolate amargo na boca e a fechou como um túmulo egípcio cheio de surpresas a
serem encontrados e que não serão.
Cansado, colocou seus
pés no chão, primeiro as pontas dos dedos e depois foi encostando todo o solado
no chão frio, sentindo a ausência de calor subir até o joelho, até o nível que
seu quarto tinha inundado. Tirou seu pijama e jogou em cima da cama. Pulou a
janela, só de roupa íntima, porque não queria mais estar rodeado pelo seco e
infecundo. Como se tivesse um túnel com a mais bela luz brilhante no final, a
pureza do sol, ele ficou olhando, sentindo aqueles pingos desordenados caindo
das nuvens que estavam passando rapidamente.
Ainda estava sob o transe
da fumaça, ou porque simplesmente gostava de imaginar. Cada prédio tornava-se
uma árvore, todas elas formavam um corredor por onde ele saiu correndo para
acompanhar as nuvens que iam fecundar outro lugar. Perigosas nuvens que
enfrentavam os céus deslizando sobre ele até chegar ao ponto de se tornarem acariciáveis.
E de longe, uma
distância incalculável, vindo do final da rua, até para quem estava vagando
por lá não conseguia enxergar, um assobio ecoava. Como se alguém montado à
cavalo fugisse dentro da melodia, repetindo I’m
not alone, I’m not alone, I’m not
alone.
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