Então, doutor, vou falar exatamente como aconteceu. Mas fique o senhor sabendo que até já tentei contar algumas vezes, mesmo assim não me acalmo. Não gosto de ficar calma em uma situação dessas, quero uma boa confusão porque sou apaixonada por DR’s – discutir relação, se o senhor não sabe – como costumam falar. Não é bem que eu procure uma confusão, ela aparece. E André me dá motivos para isso: o desgraçado sabe que sou pouco ciumenta e ainda fica fazendo gracinhas e charminho por aí. Pior, ainda tem a cara de pau de dizer que sou fofa com raivinha, embora também fique emburrado quando lhe digo umas boas verdades – se quer uma puta, termine comigo primeiro porque não quero sair como a vaca chifrada da relação.
Ontem foi assim: saímos para um jantar elegante na casa de um amigo que ele arranjou pela empresa em que trabalha. Eu me arrumei toda porque queria que sentissem inveja da esposa que ele tem – e porque queria mostrar para todas as velhas solteiras de lá que esse homem já tinha uma mulher e que ela é bonita e gostosa. Lá encontramos um casal de amigos e sentamos em uma mesa para conversarmos.
Enquanto compartilhava meus comentários sobre a festa e os convidados com minha querida amiga Joyce, André conversava com Antônio. Até esse momento estava tudo bem, pois eu não estava prestando muita atenção no que André fazia: ou avaliava o evento ou tomava conta de André. E pela minha inocente distração, André aproveitou para avaliar as convidadas do evento.
Antônio levantou para conversar com outros convidados e André permaneceu na mesa com parte do rosto virado para a multidão, quase de costas pra mim. Eu não ia falar nada, porque não queria dar uma de deselegante na frente de Joyce – sei por altos que ela é uma fofoqueira sem rédeas, aumentaria qualquer pequena observação que eu tecesse a respeito do comportamento de meu marido.
Disfarcei a observação que fazia de André, segura de que não deixaria nada passar em branco. E não deixei mesmo. Mey, vou pegar uma taça de champanha, já retorno, disse-me o descarado. Não vou mentir que se fiz o que fiz foi porque eu estava agoniada. O incomodo subiu a minha cabeça e derrubei o barraco, o que seria melhor do que um par de chifres subir à cabeça.
André caminhou em direção ao garçom que servia umas jovens – eram até bonitas, porém, por estarem apenas desabrochando por volta dos seus 23 anos, não tinham todo o néctar que uma mulher como eu tenho para oferecer. Uma taça na mão e um charme no rosto: André começou a conversar com aquelas moças (não sei que interesse, além de gaiatices, poderia ter). Aos meus olhos, ele estava querendo se roçar nas pernas das moças mais que um gato carente em busca de carinho, ou por puro alívio do cio.
A essa altura, Joyce já sabia o que estava acontecendo e estava até calada para me observar com mais atenção: essa velha, por não ter mais o que fazer, fica esperando por qualquer nova história. Ela ainda teve o afoito de dizer-me: que bonitas aquelas moças que estão conversando com André; de onde ele as conhece? Falou com tanta malícia que a boca velha deve ter se enchido de veneno – talvez não muito, por usar com tanta frequência.
Joyce e eu estávamos de cumplicidade, pois bem sei que se ela visse alguma coisa que meus olhos estrábicos ousassem sucumbir ao meu medo de ver o que não queria, ela iria me avisar com uma satisfação bajuladora de uma boa serva.
Então aconteceu: André piscou o olho pra uma loira. Eu, que não sou besta, levantei logo da cadeira deixando Joyce soltando suas malícias, e fui em direção ao grupo. E fiz confusão: gritei tantas indecências que apavorei a todos. Sou senhora decente, mas que nem por isso deixo de falar palavrões, ainda mais quando afastam as mágoas da garganta; e os urubus da minha carniça.
Não vou lhe contar o que aconteceu com detalhes porque já estou mais calma, sabe? Embora ainda esteja magoada e sentida com André. Sou uma pessoa exigente e olhadelas para o lado não tolero. Aos meus sessenta anos e uma coisa dessas vêm me acontecer?! Ah não, doutor, sou mulher vivida e sei o que fazer. Mas vou chegar ao ponto que me trouxe aqui.
Depois que disse tudo que pudesse constranger o grupo, e até a mim mesma, saí de forma drástica e dramática de perto deles, porque tinha que fazer com que André viesse correndo atrás de mim. Na pressa, bati meu dedo mindinho na perna de uma cadeira. Foi uma dor tão desgraçada que nem vou lhe contar. Imagina como são os ossos de uma mulher vivida como eu!
Comecei a chorar, o que não estava nos meus planos – acho penoso ver velha chorando, mas não admito muito isso para mim porque não me vejo velha. Velhice é só estado de espírito, as rugas são estados do tempo. Então André me segurou firme e, carinhosamente, conduziu-me pra casa. Até gostei disso, mas também não disse.
Tive uma noite de sono horrível, viu? Eu me mexia e o dedo doía. Pensei que tinha só machucado, mas Dedis disse que era melhor procurar um médico porque eu poderia ter quebrado. Tão atencioso meu marido! O senhor acredita que ele me explicou tudo direitinho? Dedis é carente demais e como eu não estava dando atenção para ele, pois conversava com Joyce, ele virou a cabeça pros lados para ver se conseguia chamar minha atenção. Percebeu que não deixei de conversar com minha colega e levantou-se para fazer ciúmes. Olhe só que mimado! Acreditei, afinal Dedis sempre diz que só tem olhos para mim; e é bem verdade que ele também pisca com muita frequência.
Nenhum comentário:
Postar um comentário