Caibo em lugares pequenos, muito
apertados como a saída do útero. Caibo nestes lugares que apertam todas as
partes do corpo, machucando a carne contra os ossos e contra as paredes do
aperto. Coloque-me, sem medo da claustrofobia, dentro do aperto porque não encontro
espaço para me depositar fora dele. Não há chão seguro para pisar, tampouco quero
colar os dois pés no chão – desejo a ínfima sensação que coça os pés descalços,
que flutuam sobre o ar abafado presente nos pouquíssimos centímetros entre o
chão e o solado dos pés, o pré-contato. Queria ser o recheio do oco, a melhor
comida que é oferecida quando se não tem fome.
Na minha intimidade, nunca pertenci a
lugar nenhum, pois sempre estive muito espalhado, como fogo conduzido por uma
grande ventania. O mesmo fogo que também corre por uma floresta seca. Ou ainda
as cinzas que são jogas do topo de uma altíssima montanha.
Busquei conter-me em mim – nunca encontrei
o sossego. Estar avulso angustia-me; eu que sempre fui tão livre, não suporto
mais esse costume. A verdade do que falei agora pouco: nunca fui livre por
inteiro em um espaço que pudesse me colocar. Somente quando, livre das
insônias, durmo em posição fetal, igualzinho como se estivesse no útero. É como
se estivesse em um lugar que eu nunca estive antes. E estive sem saber que
aquele era o lugar.
Veja só, little thing, até minhas palavras
são avulsas e confusas. Não, não pretendi falar sem nexo de propósito, acredite
em mim que estou sendo tão espontâneo como o ar. Se não me entende é porque
estou te enchendo com um turbilhão de ideias por segundo, sem filtro e sem
ordem.
Estou prestes a surtar. Talvez um psiquiatra
dissesse para mim “sim, você está pestes a surtar” e eu diria “sim, eu sei que
estou porque sinto tudo em mim mudando muito rápido para que eu possa acompanhar.
Também sinto uma coceira que não existe se espalhar pelo corpo. Primeiro do
joelho para baixo, depois do joelho para cima. Fico muito irritado com a
angústia que isso causa, seu psiquiatra. Coça tanto que começo a chorar. E coço
como se ela existisse”. Então ele diria “como eu dizia, você está prestes a
surtar, inclusive já está tendo pequenos surtos”. Depois escreveria tudo do que
eu precisaria em um papel e finalizaria a consulta com “tome três vezes ao dia
e dobre a dose quando a coceira começar”.
Enquanto não marco minha sessão, paro de
pensar no quanto minha coceira coça e ela deixa de me matar. Li que isso é
psicossomatização, mas o psiquiatra dirá que é alucinação - alguém tem que
acertar em algum momento. Como falava, paro de pensar na angústia que me coça e
volto ao meu delírio de viver, no que foi tecido de modo que eu continuasse
normal na vida. E por tudo isso, pelo espaço que nunca tive, quero condensar o
que restou do meu estado liquefeito. Quero uma caixa para me depositar dentro e
saber que existo em algum lugar.
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