sábado, 20 de dezembro de 2014

E SÃO FEITOS MEUS AMORES

E São feitos Meus Amores para baixar de graça  na Amazon *-*

             
                  Se tu me amas... confie em mim da mesma forma que eu confio em ti, como diz Sometimes. Confie desconfiando, insegura; confie de olhos abertos. Se tu me amas, tenha dúvidas, seja incerta sobre esse sentimento. Cultive-o como um desejo eterno.
              E são feitos meus amores é uma obra composta por 17 contos de escrita simples e, por vezes, direta. As histórias acontecem em cenas do cotidiano que são penetradas por diversas vivências amorosas, muitas das quais afloram na adolescência e percorrem o resto da vida. Os contos são permeados por drama, sentimentalidade e humor; seus desfechos são incertos, algumas vezes, inexistentes, e em outros contos são constantes. E assim são feitos todos os amores

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

CARTAS ANÔNIMAS - Carta nº X

Heloíse,

Quaisquer que sejam as reflexões sobre os motivos que a conduziram até ao que amargamente vivemos agora, peço-lhe que faça um esforço para resguardá-las. Não estou pedindo para que você as contenha, esqueça-as ou não as sinta como são. Estou pedindo para que as guarde de mim por um tempo. Peço que seja paciente por uma semana. Estou inteiramente certo de que não poderei aguentar seu desabafo agora. Sim, Heloíse, eu sei bem, compreendo seus motivos, pois os percebi por meio do meu jeito de ser. Eu os reconheço em mim e não consegui fazer nada para que não lhe afetassem. Embora eu tenha tamanha consciência, sou absolutamente fraco. Talvez seja pela minha fraqueza, mas porque você que é mais forte, Heloíse; e nem por isso quis ficar. Minha estrutura não aguentaria ouvir de você o que não consegui reelaborar para fazer com que quisesse ficar aqui. Não vou pedir para que volte, ou para que não parta para mais além de onde já está (mesmo que eu cultive esperanças de que uma luz possa atravessar essa hora mais escura, esse momento que nos deixou cegos). Eu, por simples egoísmo de querer me proteger, não posso lhe dar a palavra... Por favor, não esqueça o que tem a me dizer, mas não o faça agora. Escreva uma carta para me enviar adiante, para que assim não se sinta sufocada... Veja só, estou extremamente afetado com a proximidade da consciência sobre o que estou escrevendo; e não posso mais me alongar nestas linhas. Mais uma vez: por favor, permita-me ser mais grato a sua nobreza, pois sei que compreenderá que eu não estou fugindo, apenas fortalecendo meus alicerceies para suportar todo o peso que há de vir. Apenas mais sete ou oito dias.

Sinceramente, 

A.R

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Antes das pedras





Meu queridíssimo, tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor. Deste-me a maior felicidade possível. Fostes em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou destruindo a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler. O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.


V.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

EU TE LIBERTO, TU ME LIBERTAS. NÓS VOAMOS.

- Você me encontrou rápido. Estou com medo dessa alegria repentina.
- Eu não te procurava. Estranho, não é?
- Muitíssimo. Eu também já não esperava, penso que foi isso que fez você chegar rápido.
- E agora, o que a gente faz?
- Acho que nós ainda não falamos quem somos.
- É... acho que também não queremos saber. Acho que mesmo é que somos o que fazemos a partir de agora.
- Tu acredita mesmo nisso, na gente que se gosta sem nem se conhecer?
- Acredito. E acredito, sobretudo, porque quando olho nos teus olhos não estou querendo ver o que é meu, muito menos o que me falta.
- E você me aceita assim?
- Aceito.
(Silêncio).
- Fala alguma coisa.
- Prefiro ouvir você falar.
- Tudo bem. Eu gosto do silêncio.
- Eu também.
(Riso constrangido).
- Vamos?
- Vamos.
- Para onde?
- Não sei. Você quem me chamou.
- Pensei que você soubesse para onde estava me levando.
- Parece doido, mas me sinto passageiro.
- Mas eu não sei para onde estou indo.
- É melhor quando a gente não sabe.
(Juntaram as mãos e voaram sobre o mar, deixaram-se levar pela brisa entre a luz da lua, das estrelas e de seus reflexos).

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

ANEDOTA DA DANÇA

Achei espaço para uma anedota. Talvez haja mais espaço do que eu tenho a dizer. Veja só, nem sei especificamente o que dizer nesse espaço tão grande.
Já dancei descontroladamente, de olhos fechados, sozinho no quarto, fazendo movimentos que desconheço tamanha falta de sincronia, ouvindo as músicas do music player do meu celular. Foi tão boa a sensação que quando abri os olhos senti vergonha, como se tivesse feito algo de errado. Entendi nada. Às vezes cristalizo os pensamentos sobre o que não compreendo e vivo guiado por isso, tão cego.
Desci até o chão com a mão na cabeça, não me vi, porém tive a impressão de que foi uma descida de rebolado sexy. Vou fechar os olhos e fazer novamente, agora devagar, lentamente, para saber o que mudou, pois a música que me toca já é outra. Não sei dizer o nome dela porque é em búlgaro, mas o refrão é mais ou menos assim: do crai, do crai, e éssi tempi pay do crai. Do crai, do crai, hosti zado bai, pou mê nê, pou mê nê, poludei, poludei, poludei.
Dessa vez abri a boca e gozei. Cantei fora do ritmo, a letra não posso dizer se errei, fiz do meu modo. Acabou o espaço, vivê-lo o ultrapassou.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O ESPAÇO DESTINADO AO QUE É GASOSO

Caibo em lugares pequenos, muito apertados como a saída do útero. Caibo nestes lugares que apertam todas as partes do corpo, machucando a carne contra os ossos e contra as paredes do aperto. Coloque-me, sem medo da claustrofobia, dentro do aperto porque não encontro espaço para me depositar fora dele. Não há chão seguro para pisar, tampouco quero colar os dois pés no chão – desejo a ínfima sensação que coça os pés descalços, que flutuam sobre o ar abafado presente nos pouquíssimos centímetros entre o chão e o solado dos pés, o pré-contato. Queria ser o recheio do oco, a melhor comida que é oferecida quando se não tem fome.
Na minha intimidade, nunca pertenci a lugar nenhum, pois sempre estive muito espalhado, como fogo conduzido por uma grande ventania. O mesmo fogo que também corre por uma floresta seca. Ou ainda as cinzas que são jogas do topo de uma altíssima montanha.
Busquei conter-me em mim – nunca encontrei o sossego. Estar avulso angustia-me; eu que sempre fui tão livre, não suporto mais esse costume. A verdade do que falei agora pouco: nunca fui livre por inteiro em um espaço que pudesse me colocar. Somente quando, livre das insônias, durmo em posição fetal, igualzinho como se estivesse no útero. É como se estivesse em um lugar que eu nunca estive antes. E estive sem saber que aquele era o lugar.
Veja só, little thing, até minhas palavras são avulsas e confusas. Não, não pretendi falar sem nexo de propósito, acredite em mim que estou sendo tão espontâneo como o ar. Se não me entende é porque estou te enchendo com um turbilhão de ideias por segundo, sem filtro e sem ordem.
Estou prestes a surtar. Talvez um psiquiatra dissesse para mim “sim, você está pestes a surtar” e eu diria “sim, eu sei que estou porque sinto tudo em mim mudando muito rápido para que eu possa acompanhar. Também sinto uma coceira que não existe se espalhar pelo corpo. Primeiro do joelho para baixo, depois do joelho para cima. Fico muito irritado com a angústia que isso causa, seu psiquiatra. Coça tanto que começo a chorar. E coço como se ela existisse”. Então ele diria “como eu dizia, você está prestes a surtar, inclusive já está tendo pequenos surtos”. Depois escreveria tudo do que eu precisaria em um papel e finalizaria a consulta com “tome três vezes ao dia e dobre a dose quando a coceira começar”.
Enquanto não marco minha sessão, paro de pensar no quanto minha coceira coça e ela deixa de me matar. Li que isso é psicossomatização, mas o psiquiatra dirá que é alucinação - alguém tem que acertar em algum momento. Como falava, paro de pensar na angústia que me coça e volto ao meu delírio de viver, no que foi tecido de modo que eu continuasse normal na vida. E por tudo isso, pelo espaço que nunca tive, quero condensar o que restou do meu estado liquefeito. Quero uma caixa para me depositar dentro e saber que existo em algum lugar.

sábado, 12 de julho de 2014

O que há de novo hoje

Estou no meio da escuridão e não estou fazendo poesia. Aquém do dia de hoje, estou em anos que já vivi, rogando pragas a mim mesmo por não ter prestado atenção àqueles segundos. No escuro, enxergo que de tanto procurar a felicidade nos anos imediatos, esqueci de perceber que naqueles segundos de surpresa encontrava-se a felicidade propriamente dita. Deveria ter agarrado e transformado em alguma coisa só daquele momento – se prolongasse mais a sensação, seria monotonia, não a alegria, a felicidade, sei lá.
Danço ao som das músicas que já me fizeram chorar, entristecendo-me. De algum modo, são todas atuais. Tão paradoxo esse sentimento de nostalgia, sufoca com lembranças de momentos que jamais pensávamos querer lembrar, momentos tão comuns que fazem tanta falta. É um castigo para aqueles que não admiram a beleza do comum que guarda certa excentricidade dentro de si. Nem tudo é puro comum. De qualquer modo, não importa se meus olhos embaçam, pois não enxergo nada no breu. Se tudo o que eu vi não vejo mais. Adiantei-me para quê?
Estou entre molduras. Que desgraça, que desgraça! Por que algo não pisca?  Por que eu pensei em piscar se eu iria sentir falta dos vagalumes que já cacei? Eu sou tão jovem, but not younger than yesterday. Desde quando eu me fui, deixei muita saudade para ser sentida pelo que ficou. E nem sei se ainda quero me encontrar, não achei nada do que procurava no futuro. Acho que o erro foi pensar que o tempo passava tão devagar. Que tinha algo para ser alcançado. Ah, não! Enquanto eu apenas pensava no que já vivi, perdi horas de um viver. No futuro vive o passado que se deseja. No amanhã desperta a saudade do hoje.

terça-feira, 17 de junho de 2014

O QUE A GENTE NÃO SABE DIZER

Queria conhecer uma língua que expressasse aquilo que tenho a dizer. Pode até ser em poucas palavras, tirando a sensação de não ser compreendido quando falo. Tudo que digo pare de ser conteúdo refratado do que quero dizer, eu quero falar uma linguagem pura, sem embaraço de figuras de linguagem.
Preciso me comunicar comigo mesmo, mas não estou conseguindo apreender nada do que penso dizer, como se todas as coisas que disse fossem assaltadas da minha boca, seus significados levados embora. Restou-me o sentido que não pode ser dito. Minha força está presa aí. Simplesmente não enxergo minha força de querer, porque não sei dizer o que quero.
Anseio dizer querer muita coisa. E não digo absolutamente nada. Creio estar ficando sufocado na lacuna. Ainda não sucumbi por ter meus modos desajeitados de fingir força que não tenho, que também tiro não sei de onde – do meu potencial inerente de ser homem, quem duvida?!
Tenho medo de desaprender a querer, pois meu desejo como gente que deseja não está querendo muita coisa ultimamente; como pode? Quando percebo que estou desejando, logo fico fadigado, apresentando uma indisposição com uma vontade de chorar com os olhos secos de lágrimas. Até chorar tem sido agonizante. De tanto que tentei dizer o que queria e ninguém saber o que eu estava dizendo, estou parando de querer.
Ah, também não ando mais me comunicando por escrito, pois quando penso que estou escrevendo uma palavra, vejo que estou escrevendo outra que nem sempre existe na língua portuguesa ou em qualquer outra língua. A única coisa que ainda consigo expressar é que estou perdido – tem gente que já esteve e toca meu ser. Ao menos não estou só, mesmo que me sinta solitário.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

MAIS UMA PEDRA


Do que se trata isso? Sobre o que é dessa vez? Chegou-se ao ápice, ao cume, ao apogeu, qualquer outro sinônimo, como também ao poço, à baixo, ao fim. Porque ele vai dizer “eu acho chatíssimo, não vou mentir para você”. Tentou se convencer, ele jura por Deus, mas realmente acha entediante, não adianta suas explicações não condizentes com a vida. É um complexo que também se junta aos seus complexos íntimos. Você passou o dia fora hoje, até quando ele te procurou, você se colocou fora: acabo de perceber que você está indo para fora dele.
O dia demorou para passar, estava tudo escuro lá fora antes mesmo das cinco da tarde; o dia estava quente, nem uma gota de água caiu do céu,  nenhuma nuvem escondeu o sol. O sol escondeu você? Eu mesmo vou comprar as flores para enfeitar esses dias todos que parecem domingos.
Caso os conhecesse, escreveria um romance agora. Ainda, caso soubesse, escreveria algum romance que transcendesse algum drama meio meloso ou com um final triste: um romance sem final, nem triste nem feliz. Sem clímax também.  Que somente acontece, como este momento. Estou gerando um desfecho para os dias, não comprei as flores, você ainda não voltou, ele não está te esperando no quarto. Quem está com medo, quem tem medo?
Esse momento é do inconsciente, tem sua lógica. Não a nossa, embora, embora eu fosse dizer algo e tenha esquecido ou não saiba exatamente o que iria dizer. Meu peito está lotado de angústia, quem saboreia? Chupem. Estou cortando todos os “t” com muita velocidade e precisão, os cortes estão enormes, uma pauta inteira para cada "T". I’m taking me away from myself. Estou prestes, também, a colocar mais uma pedra em meu bolso. O dia de hoje pede uma pedra em cada bolso.

08 de junho de 2014.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

APÓS A MORTE


É exatamente onze horas e alguns minutos da noite e eu ainda estou perdido na sensação de ontem. Sei bem que não foi tão exato assim, muito preciso. Também não é nada pontual o que senti ontem, quer dizer, eu sei, por menores, olhos turvos, o que vi e ouvi, mas ainda não sei minimamente o que ficou em mim e o que partiu levando-me uma parte. Estou com medo de morrer, após uns dez anos sem senti-lo, encarando a morte e brincando com ela, sinto-me assustado, assustadíssimo. E contínuo, pelo menos três vezes durante a semana, pedindo pra morrer enquanto durmo. Assim: antes de dormir, quando estou deitado, corpo esticado, olhando para o teto que salpiquei de tinta roxa, sentindo minhas dores nas costas, fico imaginando morrendo, não o processo do morrer, só a morte. E acabou, como se tudo simplesmente não tivesse existido. E fico tremendo todinho, achando que vou morrer mesmo. Ontem eu estava em um hospital, passei a manhã por lá. Não estava doente até sair de lá. Somatizei todas as dores que os outros sentiam. Eu simplesmente sabia quem dali iria morrer e quem iria ficar vivo por mais algum tempo. Alguns que visitei, os que aparentavam bem, seriam os que já tinham vivido além das expectativas – guerreiros, iludidos. Eu passando por eles, com o saber sobre o fim de suas vidas correndo entre meus pensamentos e sem poder dizer nada, aconselhá-los a correr, que se escondessem. Ah, não. Como eu poderia fazer? Se os médicos, tão deuses, já decretaram o ponto final, como eu sozinho, sem poder algum, nem divindade nenhuma, poderia salvar alguém. Eu também não me salvo, sinto tudinho. Estou com medo de também estar morrendo sem saber que estou, apenas tenho a intuição. E por isso peço três ou quatro vezes por semana, antes de dormir, para não acordar. Não acabou, também não sei o que é. Tenho mania de me esconder nas minhas livres associações, de interpretar-me inconscientemente, sem querer perceber que o estou sabendo. Bem sei que isso é só pra não ter acesso à ferida. Acerca do sintoma eu sei, tenho a ferida cutucada. Mas não é só. Acho que já estou fugindo, falava sobre a morte. Ontem também um motorista de ônibus morreu. Levou facadas de um assaltante no dia anterior. E esperou até o dia seguinte. Como se calcula esse tempo? Se é pra morrer, por que não de uma vez? Agora mesmo, há alguns instantes, eu estava deitado, pensando no que já disse. Aí levantei, porque não queria ficar deitado esperando morrer. Quero de uma vez. Ou que a sensação de estar so-bre-vi-ven-do também passe de uma vez. De uma vez, aqui estou expelindo-a de mim com os dedos, com a mão direita e a esquerda. Digitando. Mostro sim, a mim: eu vou morrer, pois já estou morrendo.
O que eu quero? Agora eu sei o que eu quero? Agora você sabe o que eu quero? Eu perguntei se agora você sabe o que eu quero. Você não vai me responder? Você vai me ignorar? É incrível, né? Eu não estou de boa.
Assim como?
É pelo quê então?
Eu não quero conversar sobre.
Se eu morresse num sonho e, sabendo que estava sonhando, tentasse despertar, mas realmente estivesse morto, todo o corpo gelado? Do lado, meu espírito vendo minha palidez de longe, observando o que tinha sido meu corpo magrinho, naquele momento durinho, rindo, rindo, rindo kkkkkkkkkk k-k-k. Acho que já estou sacaneando a morte. Acho que já estou iniciando novos dez anos sem expulsá-la, fazendo amizade, enfrentando e conhecendo-a. Todos caminhamos ao seu encontro.
Fábio Pinheiro
30 de maio de 2014.

Agora acaba de chegar ao dia 31 de maio de 2014.

sábado, 3 de maio de 2014

Amor de militante

             Meu amor, aqui estamos nós, novamente e de novo, fingindo serenidade e sinceridade nas nossas palavras que estão tão vagas, perdidas numa incerteza exacerbada. Estamos como elas, ocos e com medo dessa solidão onde já habitamos; assistimos nossas solidões, que dizer, você assiste a minha e eu a sua e nenhum de nós sabe exatamente o que fazer.
            Embora tenhamos saído na hora, perdemos nosso encontro, algo avançou a nossa hora sem avisar. Lembra-se das vezes que saíamos separados, eu do meu cantinho e você do seu, para irmos nos encontrar? Você ia me encontrar pelo caminho que acreditava que eu iria fazer e eu ia ao teu encontro pelo caminho que tinha plena certeza de que você iria trilhar. E por nos conhecermos tanto, dessa miserável forma, nos desencontrávamos. Tirei de cada desencontro algo que ainda não perdi, pudemos conhecer nossa singularidade de tal maneira que nos vemos invadindo um a do outro. Estamos nos descobrindo e não há espaços para nós.
            Você dobrou em alguma esquina rápido demais para que eu pudesse ver de qual rua era, sem rastro de fumaça, pobre de mim que tenho tão pouca orientação. Eu entrei em algum beco e lá fiquei preso, você não viu, eu te perdoo, mesmo que não seja necessário. É desejo, escapa da necessidade. E o nosso desejo? E o nosso? E o nosso? Gostaria de não sentir que escapou e deixou só uma necessidade, aquela necessidade de conforto, a presença do medo de passar por algum fim, começar de novo, chutar o pau da barraca, quebrando o graveto sem o qual não se pode construir outra. E se já não nos amamos, somente, solamente, sentimos o medo de chegar ao fim? Oh, baby, baby how was I supposed to know
that something wasn't right here?
         Cuidado, frágil: algumas pessoas têm receio de pisar sobre ovos e se machucam pelos passos cuidadosos que dão, medindo cada centímetro para colocar o pé torto em um mísero espaço a fim de não quebrar um ovinho sequer. Nós estamos segurando ovos quebrados em nossas mãos, fazendo um esforço cruel para não deixar escorrer entre os espaços apertados entre os dedos aquela gosminha amarela com banco. Tão fracas ficaram nossas cascas que quebraram às nossas carícias, tão clara ficou nossa gema. Tão banais parece que nos tornamos.
            Estão dizendo escondido de você, a mim já disseram, que nosso relacionamento está acabando sem que seja preciso um terminar com o outro, assim, naturalmente, como as folhas caem no outono e a neve em outra estação.
           Fizemos algo errado, foi a coisa certa. Não temos o que seguir, e nossas vivências não nos foram ensinadas, how were we supposed to know? Escolhemos a liberdade, o amor corre livre por aí. Solitários. Felizes, talvez, quem pode dizer? Atenciosa foi nossa falta, mandou beijos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A água nunca foi tão viva e a boca tão seca


"E eis que sinto que em breve nos separemos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver" (Clarice Lispector: Água Viva).

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Mal-estar de um anjo

           Ao sair do edifício, o inesperado me tomou. O que antes fora apenas chuva na vidraça, abafado de cortina e aconchego, era na rua a tempestade e a noite. Tudo isso se fizera enquanto eu descera pelo elevador? Dilúvio carioca, sem refúgio possível, Copacabana com água entrando pelas lojas rasas e fechadas, águas grossas de lama até o meio da perna, o pé tateando para encontrar calçadas invisíveis. Até movimento de maré já tinha, onde se juntasse o bastante de água começava a atuar a secreta influência da Lua: já havia fluxo e refluxo de maré. E o pior era o temor ancestral gravado na carne: estou sem abrigo, o mundo me expulsou para o próprio mundo, e eu que só caibo numa casa nunca mais terei casa na vida, esse vestido ensopado sou eu, os cabelos escorridos nunca secarão, e sei que não serei dos escolhidos para a Arca, pois já selecionaram o melhor casal de minha espécie.Pelas esquinas os carros de motor paralisado, e nem sombra de táxi. E a alegria feroz de vários homens finalmente impossibilitados de voltar para casa. A alegria demoníaca dos homens livres ainda mais ameaçava quem só queria casa própria. Andei sem rumo ruas e ruas, mais me arrastava que andava, parar é que era o perigo. De minha desmedida desolação eu só conseguia que ela fosse disfarçada. Alguém, radiante sob uma marquise, disse: que coragem, hein, dona! Não era coragem, era exatamente o medo. Porque tudo estava paralisado, eu que tenho medo do instante em que tudo pare tinha que andar.
         E eis que nas águas vejo um táxi. Avançava cuidadosamente, quase centímetro por centímetro, tateando o chão com as rodas. Como é que eu me apoderaria daquele táxi? Aproximei-me. Não podia me dar ao luxo de pedir, lembrei-me de todas as vezes em que, por ter tido a doçura de pedir, não me deram. Contendo o desespero, o que sempre me dá uma aparência de força, disse ao chofer: "o senhor vai me levar para casa! é de noite! tenho filhos pequenos que devem estar assustados com minha demora, é de noite, ouviu?!" Para minha grande surpresa, vai o homem e simplesmente diz que sim. Ainda sem entender, entrei. O carro mal se movia nas ondas lamacentas, mas movia-se - e chegaria. Eu só pensava: eu não valho tanto. Daí a pouco já estava pensando: e eu que não sabia que valia tanto. E daí a pouco era a dona-de-casa de meu táxi, já tomara posse de direito do que gratuitamente me fora dado, e energicamente tomava medidas úteis: torcia cabelos e roupas, tirava os sapatos amolecidos, enxugava o rosto que mais parecia ter chorado. A verdade, sem pudor, é que eu tinha chorado. Muito pouco, e misturando motivos, mas chorado. Depois de arrumar minha casa, encostei-me bem confortável no que era meu, e de minha Arca assisti ao mundo acabar-se. 
          Uma senhora aproximou-se então do carro. Devagar como este avançava, ela pôde acompanhá-lo agarrada em aflição ao trinco da porta. E literalmente me implorava para compartilhar do táxi. Era tarde demais para mim, e seu itinerário me desviaria de meu caminho. Lembrei-me, porém, de meu desespero de havia cinco minutos, e resolvi que ela não teria o mesmo. Quando eu lhe disse que sim, seu tom de imploração imediatamente cessou, substituído por uma voz extremamente prática: "É, mas espere um pouco, vou até aquela transversal buscar na casa da costureira o embrulho do vestido que deixei lá para não molhar". "Estará ela se aproveitando de mim?", indaguei-me na velha dúvida se devo ou não deixar que se aproveitem de mim. Terminei cedendo. Ela demorou à vontade. E voltou com um enorme embrulho pousado nas mãos estendidas, como se até seu próprio corpo pudesse macular o vestido. Instalou-se totalmente, o que me deixou tímida na minha própria casa. 
        E começou o meu calvário de anjo - pois a mulher, com sua voz autoritária, já tinha começado a me chamar de anjo. Não poderia ser menos comovente o seu caso: aquela era a noite de uma première e, se não fosse eu, o vestido se estragaria na chuva ou ela se atrasaria e perderia a première. Eu já tivera as minhas premières, e nem as minhas me haviam comovido. "A senhora não sabe o milagre que me aconteceu", contou-me com firmeza. "Comecei a rezar na rua, a rezar ara que Deus me mandasse um anjo que me salvasse, fiz promessa de não comer quase nada amanhã. E Deus me mandou a senhora." Constrangida, remexi-me no banco. Eu era um anjo destinado a proteger premières? a ironia divina me encabulava. Mas a senhora, com toda a força de sua fé prática, e tratava-se de mulher forte, continuava impositivamente a reconhecer o anjo em mim, o que só pouquíssimas pessoas até hoje reconheceram, e sempre com a maior discrição. Tentei sem jeito a leveza de um sarcasmo: "Não me supervalorize, sou apenas um meio de transporte". Enquanto que a ela nem sequer ocorreu compreender-me, eu a contragosto percebia que o argumento na verdade não me isentava: anjos também são meios de transporte. Intimidada, calei-me. Fico muito impressionada com quem grita comigo: a mulher não gritava, mas claramente mandava em mim. Impossibilitada de confrontá-la, refugiei-me num doce cinismo: aquela senhora, que tratava com tanto vigor do próprio êxtase, devia ser mulher habituada a comprar com dinheiro, e na certa terminaria por agradecer ao anjo com um cheque, também levando em conta que a chuva já devia ter lavado toda a minha distinção. Com um pouco mais de confortável cinismo, em silêncio, declarei-lhe que dinheiro seria um meio tão legítimo como qualquer outro de agradecer, já que a moeda dela era mesmo moeda. Ou então - diverti-me eu - bem poderia dar-me em agradecimento o vestido da première, pois o que ela realmente deveria agradecer não era ter um vestido seco, e sim ter sido atingida pela graça, isto é, por mim. Dentro de um cinismo cada vez melhor, pensei: "Cada um tem o anjo que merece, veja que anjo lhe coube: estou cobiçando por pura curiosidade um vestido que nem sequer vi. Agora quero ver como é que sua alma vai se arrumar com a ideia de um anjo interessado em roupas". Parece-me que, no meu orgulho, eu não queria ter sido escolhida para servir de anjo à tolice ardente de uma senhora. 
       A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar. Conheço bem esse processo do mundo: chamam-me de bondosa, e pelo menos durante algum tempo fico atrapalhada para ser ruim. Comecei também a compreender como os anjos se chateiam: eles servem a tudo. Isso nunca me ocorrera. A menos que eu fosse um anjo muito embaixo na escala dos anjos. Quem sabe, até, eu era só aprendiz de anjo. A alegria satisfeitona daquela senhora começava a me deixar sombria: ela fizera uso exorbitante de mim. Fizera de minha natureza indecisa uma profissão definida, transformara minha espontaneidade em dever, acorrentava-me, a mim, que era anjo, o que a essa altura eu já não podia mais negar, mas anjo livre. Quem sabe, porém, eu só fora mandada ao mundo para aquele instante de utilidade. Era isso, pois, o que eu valia.        No táxi, eu não era um anjo decaído: era um anjo que caía em si. Caí em mim e fechei a cara. Um pouco mais e teria dito àquela de quem eu era com tanta revolta o anjo da guarda: faça o obséquio de descer já e imediatamente deste táxi! Mas fiquei calada, aguentando o peso de minhas asas cada vez mais contritas pelo seu enorme embrulho. Ela, a minha protegida, continuava a falar bem de mim, ou melhor, de minha função. Emburrei. A senhora sentiu e calou-se um pouco desarvorada. Já na altura de Viveiros de Castro a hostilidade se declarara muda entre nós. 
      - Escute, disse-lhe eu de repente, pois minha espontaneidade é faca de dois gumes também para os outros, o táxi vai antes me deixar em casa e depois é que segue com a senhora. 
      - Mas, disse ela surpreendida e em começo de indignação, depois vou ter que dar uma volta enorme e vou me atrasar! é só um pequeno desvio para me deixar em casa! 
    - Pois é, respondi seca. Mas não posso entrar pelo desvio. 
    - Eu pago tudo! insultou-me ela com a mesma moeda com que teria se lembrado de me agradecer. 
    - Eu é que pago tudo, insultei-a. 
    Ao saltar do táxi, assim como quem não quer nada, tive o cuidado de esquecer no banco as minhas asas dobradas. Saltei com a profunda falta de educação que me tem salvo de abismos angelicais. Livre de asas, com a grande rabanada de uma cauda invisível e com a altivez que só tenho quando pára de chover, atravessei como uma rainha os largos umbrais do Edifício Visconde de Pelotas.


Clarice Lispector
LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Pré-fuga

Fugi, embora ame o que é adverso, embora meu corpo tenha permanecido paradinho por lá. Eu não morri, adianto que essa não é uma experiência após a vida. Sabe quando você nunca esteve no lugar onde estava? Não é preciso empatia para saber. Eu fugi por ter caído na transferência. Na verdade, está além disso, eu fugi por culpa pelo abuso que sentia de alguém que não era o alguém do meu abuso, mas que eu jogava todo o sentir em cima dele. Os dois estavam se olhando, cara a cara, como se um estivesse na frente do espelho e o outro fosse o reflexo do futuro.  Isso, eu fugi da projeção futurística do outro, e agora não os suporto. Foi a medida mais apropriada, com as palavras grifadas no papel. Agorinha estou com raiva da fuga, como se houvesse uma forma de correr do sintoma! Eu não sou covarde, só não estava dando o que era de César ao próprio César. Eu tinha muito a dizer, mas a palavra me escapou sem que eu tivesse mordido a isca.