quarta-feira, 29 de abril de 2015

UM SOPRO

Meu Deus, como tem sido dolorido criar coragem para me responsabilizar pela minha própria liberdade! Como venho sendo vítima de vários atentados com essa entrega de escolhas a mim (justamente para mim, cuja única guerra que declarei foi contra meu indivíduo). É um desconforto imenso, tão grande, querer voar e de repente receber o céu inteiro. Dá até vontade de permanecer na gaiola, só por gratidão. Eu, que sou bobo, acostumei-me a encontrar um infinito no pouco que me foi dado. Também ser firme diante das vastas e difíceis impossibilidades para ser, só para, com surpresa, encontrar uma brecha que possibilite um pequeno espaço, um mísero instante daquilo que bilha nos olhos – há vaidade, há coisas que se deseja sempre. De alguma forma, o que não agrada viver serve como apoio para esses espaços e instantes aleatórios, meio banais e clichês, meio flores de cactos. Eu bem mereço essa liberdade e a dor de consumi-la; entregar-me-ei.

sábado, 7 de março de 2015

PARA QUEM NÃO SE RECONHECE BATATA

Aconteceu nesses dias, mas só agora os estalos impulsionaram o querer falar. E eu somente falo com intimidade quando escrevo; comunico-me melhor e sou mais compreensível assim. É o seguinte, disseram que eu estava atrapalhando o desenvolvimento de um trabalho, só falava besteiras – daí constato que me comunico melhor escrevendo.
De início, senti-me levemente incomodado. Senti também como se um soco tivesse me atingido por dentro, perto da minha ferida no estômago. Obviamente, nada disse, calei-me por dois segundos, logo depois continuei eu-me, obviamente afetado. Obviamente, eu deveria ter dito algo contra aquele veredicto, defendendo-me, talvez. Nada fiz, porém não me foi tão obviamente sabido o por quê. Então outros pequenos estalos foram me ocorrendo durante o resto da tarde e culminaram no estalo maior que é este impulso de escrever.
Pois bem, vou falar o que aconteceu, não exatamente como, mas foi o me que aconteceu – de algum modo as pessoas sensíveis compreendem o que acontece a outra pessoa, pois elas também sabem como acontece com elas.
Antes de eu falar minhas besteiras e atrapalhar o desenvolvimento do trabalho, três pessoas e eu falávamos sobre saúde mental e arte – parece simples, mas é difícil. Todos falavam e falavam sobre ideias com a finalidade – fi-na-li-da-de – de estruturar uma apresentação para o tal trabalho que atrapalhei o desenvolvimento. Eu falava e falava. Acontece, porém, que eu falava e falava como louco que, às vezes, sou agraciado em ser. E tão logo falar e falar não me foi mais permitido! Não recordo bem o que falei, só que falei e falei. Para ser exato, não lembro daquele momento, como se não fosse possível saber o que é liberdade. Porém lembro com clareza e precisão do corte.
            – macho, tu só fala besteira, só faz atrapalhar...
Antes de ouvir o resto, eu já observava o Falante, que baixou a cabeça (acho que se constrange quando fala). Penso tenho olhinhos de coruja.
O corte foi feito, fim de arte. Assim escorreu a experiência que, como já disse, vez ou outra, tenho. Daí também compreendi que não falávamos de saúde mental, muito menos de arte.
De volta à normalidade, sem atrapalhar o desenvolvimento do trabalhar com besteiras, percebi que falávamos do oposto ao normal, da saúde mental como promoção da salvação para aqueles que são o antônimo de normal, o oposto de nós, os são – agora já estava incluso na conversa.
A loucura anunciada era a mesma que deveria ser cortada, aquilo que não é de nossa compreensão, aquilo que deve ser retirado por atrapalhar o desenvolvimento do que é passível de ser dito com clareza e precisa. A loucura não é comum a todos.
Boa parte guardo para mim, a experiência era minha, o corte também foi para mim. Tudo isso aconteceu, mas o que estalou e conduziu-me ao impulso foi o Falante.
O Falante poderia ter sido qualquer um, mas foi aquele que mais se aproxima do conhecimento da loucura. Talvez se aproxime por exclusão, afastando-se enquanto conhece.
A expressão do Falante é o que o afasta da experiência da loucura, não da loucura de loucos, mas das loucuras do ser. Ele não pode se deixar ser nem os outros podem ser tanto com ele.
Ele fala como se soubesse o que ninguém sabe, chocando com a novidade (que muitas vezes é de conhecimento de todos, mas sem a necessidade de ser anunciado) e impondo respeito. Respeito não por ser, mas por ter a luz para a ignorância. Ele intelectualiza a expressão de viver de forma dura. Dói quando se olha: daqui, nota-se o extremo, o outro lado de quem passou por muita coisa e somente carrega o fato consigo, ficando distante do que aconteceu e ninguém disse. O falante não gosta das palavras organizadas de forma poética, da forma eufêmica de falar. Também não gosta da beleza da simplicidade e do otimismo que é ridicularizado e pouca gente acredita. Ele corta tudo isso que sabe.
Esses estalos vinham acontecendo há alguns dias, estalava quando os escritores pau no cu o assombravam com dizeres sobre a potencialidade de se desenvolver nas adversidades, dizeres sobre as potencialidades das batatas. Quem estuda botânica fala que essas batatas passaram por algum processo de Fotomorfogénese, em que plantas, no escuro, crescem estioladas. Para os escritores pau no cu isso é a tendência à atualização que toda coisa viva tem. Assusta-o tanto otimismo fajuto.
Eu, que acredito (às vezes de forma jocosa) na poesia que há na organização e no vácuo de uma palavra para outra e que também acredito no potencial das batatas, enxergo o Falante como um broto. Um pequeno e estiolado broto de batata que também gosta das palavras. Expressa-as com medo, por meio de cortes, que também lhe acertam e o afasta daquilo de ser-no-mundo.
Priva-se agora por conta própria daquilo que foi.
E minhas besteiras algo lhe causaram, por que não? Desconforto no pecador que gosta de pecar e não compreende por que toda a burrice que lhe é dita incomoda, logo nele que não acredita em pecados, mas sente-se ameaçado.
Estalou-me tantas outras coisas que não vou escrever por amor a mim e a todos no mundo, também amor por às batatas. Também por salvar o Falante da minha maldição.
Eu não tenho pretensões, não embelezo as palavras, apenas uso-as por conhecer o gosto que elas têm me dado. Resta-me ainda descobrir o meu próprio incômodo, que contribuiu para tantos estalos.
Eu deixo-o ser.
         

sábado, 20 de dezembro de 2014

E SÃO FEITOS MEUS AMORES

E São feitos Meus Amores para baixar de graça  na Amazon *-*

             
                  Se tu me amas... confie em mim da mesma forma que eu confio em ti, como diz Sometimes. Confie desconfiando, insegura; confie de olhos abertos. Se tu me amas, tenha dúvidas, seja incerta sobre esse sentimento. Cultive-o como um desejo eterno.
              E são feitos meus amores é uma obra composta por 17 contos de escrita simples e, por vezes, direta. As histórias acontecem em cenas do cotidiano que são penetradas por diversas vivências amorosas, muitas das quais afloram na adolescência e percorrem o resto da vida. Os contos são permeados por drama, sentimentalidade e humor; seus desfechos são incertos, algumas vezes, inexistentes, e em outros contos são constantes. E assim são feitos todos os amores

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

CARTAS ANÔNIMAS - Carta nº X

Heloíse,

Quaisquer que sejam as reflexões sobre os motivos que a conduziram até ao que amargamente vivemos agora, peço-lhe que faça um esforço para resguardá-las. Não estou pedindo para que você as contenha, esqueça-as ou não as sinta como são. Estou pedindo para que as guarde de mim por um tempo. Peço que seja paciente por uma semana. Estou inteiramente certo de que não poderei aguentar seu desabafo agora. Sim, Heloíse, eu sei bem, compreendo seus motivos, pois os percebi por meio do meu jeito de ser. Eu os reconheço em mim e não consegui fazer nada para que não lhe afetassem. Embora eu tenha tamanha consciência, sou absolutamente fraco. Talvez seja pela minha fraqueza, mas porque você que é mais forte, Heloíse; e nem por isso quis ficar. Minha estrutura não aguentaria ouvir de você o que não consegui reelaborar para fazer com que quisesse ficar aqui. Não vou pedir para que volte, ou para que não parta para mais além de onde já está (mesmo que eu cultive esperanças de que uma luz possa atravessar essa hora mais escura, esse momento que nos deixou cegos). Eu, por simples egoísmo de querer me proteger, não posso lhe dar a palavra... Por favor, não esqueça o que tem a me dizer, mas não o faça agora. Escreva uma carta para me enviar adiante, para que assim não se sinta sufocada... Veja só, estou extremamente afetado com a proximidade da consciência sobre o que estou escrevendo; e não posso mais me alongar nestas linhas. Mais uma vez: por favor, permita-me ser mais grato a sua nobreza, pois sei que compreenderá que eu não estou fugindo, apenas fortalecendo meus alicerceies para suportar todo o peso que há de vir. Apenas mais sete ou oito dias.

Sinceramente, 

A.R

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Antes das pedras





Meu queridíssimo, tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor. Deste-me a maior felicidade possível. Fostes em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou destruindo a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler. O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.


V.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

EU TE LIBERTO, TU ME LIBERTAS. NÓS VOAMOS.

- Você me encontrou rápido. Estou com medo dessa alegria repentina.
- Eu não te procurava. Estranho, não é?
- Muitíssimo. Eu também já não esperava, penso que foi isso que fez você chegar rápido.
- E agora, o que a gente faz?
- Acho que nós ainda não falamos quem somos.
- É... acho que também não queremos saber. Acho que mesmo é que somos o que fazemos a partir de agora.
- Tu acredita mesmo nisso, na gente que se gosta sem nem se conhecer?
- Acredito. E acredito, sobretudo, porque quando olho nos teus olhos não estou querendo ver o que é meu, muito menos o que me falta.
- E você me aceita assim?
- Aceito.
(Silêncio).
- Fala alguma coisa.
- Prefiro ouvir você falar.
- Tudo bem. Eu gosto do silêncio.
- Eu também.
(Riso constrangido).
- Vamos?
- Vamos.
- Para onde?
- Não sei. Você quem me chamou.
- Pensei que você soubesse para onde estava me levando.
- Parece doido, mas me sinto passageiro.
- Mas eu não sei para onde estou indo.
- É melhor quando a gente não sabe.
(Juntaram as mãos e voaram sobre o mar, deixaram-se levar pela brisa entre a luz da lua, das estrelas e de seus reflexos).

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

ANEDOTA DA DANÇA

Achei espaço para uma anedota. Talvez haja mais espaço do que eu tenho a dizer. Veja só, nem sei especificamente o que dizer nesse espaço tão grande.
Já dancei descontroladamente, de olhos fechados, sozinho no quarto, fazendo movimentos que desconheço tamanha falta de sincronia, ouvindo as músicas do music player do meu celular. Foi tão boa a sensação que quando abri os olhos senti vergonha, como se tivesse feito algo de errado. Entendi nada. Às vezes cristalizo os pensamentos sobre o que não compreendo e vivo guiado por isso, tão cego.
Desci até o chão com a mão na cabeça, não me vi, porém tive a impressão de que foi uma descida de rebolado sexy. Vou fechar os olhos e fazer novamente, agora devagar, lentamente, para saber o que mudou, pois a música que me toca já é outra. Não sei dizer o nome dela porque é em búlgaro, mas o refrão é mais ou menos assim: do crai, do crai, e éssi tempi pay do crai. Do crai, do crai, hosti zado bai, pou mê nê, pou mê nê, poludei, poludei, poludei.
Dessa vez abri a boca e gozei. Cantei fora do ritmo, a letra não posso dizer se errei, fiz do meu modo. Acabou o espaço, vivê-lo o ultrapassou.