segunda-feira, 18 de novembro de 2013

NARALON

There was a time I was one of a kind
Lost in the world out of me myself and I
Was lonely then like an alien
I tried but I never figured it out
Why I always felt like a stranger in a crowd
(Alien: Britney Spears)


O dia estava chuvoso, caíam as nuvens lá fora, ou o céu estava permitindo ser tocado intimamente. Ele, sentado em frente à janela, olhava atentamente para os pingos da chuva refletidos nos poços de lama lá fora. Vez ou outra abria a boca para sentir o gosto de algumas gotas que batiam na janela de seu quarto e então se espalhavam e, como se fossem conduzidas por uma força cósmica do universo ou qualquer outra força sobrenatural, chegavam a sua boca.
Ele, que dormira tão bem, que nem teve sonhos, pois a vida parecia-lhe desvendar-se, estava imobilizado dentro de seus pensamentos avulsos, não conseguia se prender ao mais frívolo pensamento fluído – depois de tanto tempo treinando, tinha conseguido tal proeza. Abriu alguns milímetros a boca para receber outra gota de água perdida.
Noite passada, antes de dormir, sentiu-se fatigado. E de tanta fatiga acabou dormindo. O olhar atentamente para a “vida que parece desvendar-se” é algo assustador. Até se questionou por que sempre esperam que a vida seja sempre a mais bela paz de espírito ou qualquer determinação para uma paz interior; enganam-se. A verdade é que a vida assusta, ainda mais quando vai se desvendando – como se alguém soubesse sobre os detalhes que se escondem por entre as letras de v-i-d-a e corresse para longe delas, porque tocar a vida nos primeiros instantes pode ter mais estranhamento do que saber sobre a única previsão do destino que se esconde nos espaços das letras contrárias: m-o-r-t-e.
Uma nuvem carregada ousou ainda invadir seu quarto, pairando sob o teto, um céu particular para ele que estava acostumado com seu santuário dedicado à Oxum. Se inundasse o piso, subiria na cama para procurar conforto ou coragem antes de mergulhar.
Sentiu a garganta ainda seca e abriu mais a boca, agora com mais sede, como se estivesse diante de uma água que é ofertada e não pode ser bebida. A água lhe invadiu, mas não tinha sede, não queria beber água, pois estava queimando.
Fixou o olhar em um ponto secreto de uma nuvem e, dentro dele, procurava formas. Dentro de si, faziam outras. Ele, que nunca soubera muito bem dizer o que sentia, arriscava dizer que agora sentia fome, porém não gostaria de comer e quebrar com essa magnitude. Perplexo, moveu o olhar, pois aquela nuvem já tinha fugido há um longo tempo, nem mesmo a chuva pingava. Restava só um céu nublado às quinze da tarde, e ele continuava com sede e com fome, mas não quis levantar de onde estava.
Às pessoas que bateram na porta, disse somente que gostaria de ficar sozinho e que não precisavam ficar incomodados, estava bem, contente pela preocupação. Também disse que se sentia cheio, mas que se quisessem poderiam deixar um pouco de café que depois ele tomaria com leite e um pedaço de bolo.
Como quem faz algo sem saber que está fazendo, despretensiosamente inconsciente, levantou da cadeira e foi até o seu pequeno aparelho de som antigo, uma vitrola, e colocou um disco para tocar. Aproveitou, também, para comer o resto da barra de chocolate amargo.
Lembrou que tinha incensos guardados, então pegou quatro de essências diferentes: arruda, sal grosso, morango e alfazema. Esperou que todos estivessem fazendo uma fumaça divina e dançou nela, sob os cheiros confluídos; juntou a sua própria essência, dopou-se.
Voltou para a janela dançando cantos à Mãe D’água, encostou o cotovelo na beirada e a mão no queixo, inclinando um pouco a cabeça para o alto. Passou alguns minutos assim e foi acender mais alguns incensos. Os de morangos tinham acabado.
Sentou em sua cadeira e ficou assobiando.
De repente, percebeu a lua tinha invadido o seu quarto. Abriu a boca seca e ficou a esperar que outro pingo ousado chegasse aos seus lábios. E começou a chover forte. Os eventos sobrenaturais misturavam-se e ele já não sabia mais em que lenda ou vida real vivia. Ele começava a ficar saciado da sede, então colocou mais um pedaço de chocolate amargo na boca e a fechou como um túmulo egípcio cheio de surpresas a serem encontrados e que não serão.
Cansado, colocou seus pés no chão, primeiro as pontas dos dedos e depois foi encostando todo o solado no chão frio, sentindo a ausência de calor subir até o joelho, até o nível que seu quarto tinha inundado. Tirou seu pijama e jogou em cima da cama. Pulou a janela, só de roupa íntima, porque não queria mais estar rodeado pelo seco e infecundo. Como se tivesse um túnel com a mais bela luz brilhante no final, a pureza do sol, ele ficou olhando, sentindo aqueles pingos desordenados caindo das nuvens que estavam passando rapidamente.
Ainda estava sob o transe da fumaça, ou porque simplesmente gostava de imaginar. Cada prédio tornava-se uma árvore, todas elas formavam um corredor por onde ele saiu correndo para acompanhar as nuvens que iam fecundar outro lugar. Perigosas nuvens que enfrentavam os céus deslizando sobre ele até chegar ao ponto de se tornarem acariciáveis.
E de longe, uma distância incalculável, vindo do final da rua, até para quem estava vagando por lá não conseguia enxergar, um assobio ecoava. Como se alguém montado à cavalo fugisse dentro da melodia, repetindo I’m not alone, I’m not alone, I’m not alone.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

PISCADELA



           Então, doutor, vou falar exatamente como aconteceu. Mas fique o senhor sabendo que até já tentei contar algumas vezes, mesmo assim não me acalmo. Não gosto de ficar calma em uma situação dessas, quero uma boa confusão porque sou apaixonada por DR’s – discutir relação, se o senhor não sabe – como costumam falar. Não é bem que eu procure uma confusão, ela aparece. E André me dá motivos para isso: o desgraçado sabe que sou pouco ciumenta e ainda fica fazendo gracinhas e charminho por aí. Pior, ainda tem a cara de pau de dizer que sou fofa com raivinha, embora também fique emburrado quando lhe digo umas boas verdades – se quer uma puta, termine comigo primeiro porque não quero sair como a vaca chifrada da relação. 
            Ontem foi assim: saímos para um jantar elegante na casa de um amigo que ele arranjou pela empresa em que trabalha. Eu me arrumei toda porque queria que sentissem inveja da esposa que ele tem – e porque queria mostrar para todas as velhas solteiras de lá que esse homem já tinha uma mulher e que ela é bonita e gostosa. Lá encontramos um casal de amigos e sentamos em uma mesa para conversarmos.
         Enquanto compartilhava meus comentários sobre a festa e os convidados com minha querida amiga Joyce, André conversava com Antônio. Até esse momento estava tudo bem, pois eu não estava prestando muita atenção no que André fazia: ou avaliava o evento ou tomava conta de André. E pela minha inocente distração, André aproveitou para avaliar as convidadas do evento.
            Antônio levantou para conversar com outros convidados e André permaneceu na mesa com parte do rosto virado para a multidão, quase de costas pra mim. Eu não ia falar nada, porque não queria dar uma de deselegante na frente de Joyce – sei por altos que ela é uma fofoqueira sem rédeas, aumentaria qualquer pequena observação que eu tecesse a respeito do comportamento de meu marido. 
           Disfarcei a observação que fazia de André, segura de que não deixaria nada passar em branco. E não deixei mesmo. Mey, vou pegar uma taça de champanha, já retorno, disse-me o descarado. Não vou mentir que se fiz o que fiz foi porque eu estava agoniada. O incomodo subiu a minha cabeça e derrubei o barraco, o que seria melhor do que um par de chifres subir à cabeça.
        André caminhou em direção ao garçom que servia umas jovens – eram até bonitas, porém, por estarem apenas desabrochando por volta dos seus 23 anos, não tinham todo o néctar que uma mulher como eu tenho para oferecer. Uma taça na mão e um charme no rosto: André começou a conversar com aquelas moças (não sei que interesse, além de gaiatices, poderia ter). Aos meus olhos, ele estava querendo se roçar nas pernas das moças mais que um gato carente em busca de carinho, ou por puro alívio do cio. 
          A essa altura, Joyce já sabia o que estava acontecendo e estava até calada para me observar com mais atenção: essa velha, por não ter mais o que fazer, fica esperando por qualquer nova história. Ela ainda teve o afoito de dizer-me: que bonitas aquelas moças que estão conversando com André; de onde ele as conhece? Falou com tanta malícia que a boca velha deve ter se enchido de veneno – talvez não muito, por usar com tanta frequência.
         Joyce e eu estávamos de cumplicidade, pois bem sei que se ela visse alguma coisa que meus olhos estrábicos ousassem sucumbir ao meu medo de ver o que não queria, ela iria me avisar com uma satisfação bajuladora de uma boa serva.
          Então aconteceu: André piscou o olho pra uma loira. Eu, que não sou besta, levantei logo da cadeira deixando Joyce soltando suas malícias, e fui em direção ao grupo. E fiz confusão: gritei tantas indecências que apavorei a todos. Sou senhora decente, mas que nem por isso deixo de falar palavrões, ainda mais quando afastam as mágoas da garganta; e os urubus da minha carniça.
         Não vou lhe contar o que aconteceu com detalhes porque já estou mais calma, sabe? Embora ainda esteja magoada e sentida com André. Sou uma pessoa exigente e olhadelas para o lado não tolero. Aos meus sessenta anos e uma coisa dessas vêm me acontecer?! Ah não, doutor, sou mulher vivida e sei o que fazer. Mas vou chegar ao ponto que me trouxe aqui.
         Depois que disse tudo que pudesse constranger o grupo, e até a mim mesma, saí de forma drástica e dramática de perto deles, porque tinha que fazer com que André viesse correndo atrás de mim. Na pressa, bati meu dedo mindinho na perna de uma cadeira. Foi uma dor tão desgraçada que nem vou lhe contar. Imagina como são os ossos de uma mulher vivida como eu!
        Comecei a chorar, o que não estava nos meus planos – acho penoso ver velha chorando, mas não admito muito isso para mim porque não me vejo velha. Velhice é só estado de espírito, as rugas são estados do tempo. Então André me segurou firme e, carinhosamente, conduziu-me pra casa. Até gostei disso, mas também não disse.
          Tive uma noite de sono horrível, viu? Eu me mexia e o dedo doía. Pensei que tinha só machucado, mas Dedis disse que era melhor procurar um médico porque eu poderia ter quebrado. Tão atencioso meu marido! O senhor acredita que ele me explicou tudo direitinho? Dedis é carente demais e como eu não estava dando atenção para ele, pois conversava com Joyce, ele virou a cabeça pros lados para ver se conseguia chamar minha atenção. Percebeu que não deixei de conversar com minha colega e levantou-se para fazer ciúmes. Olhe só que mimado! Acreditei, afinal Dedis sempre diz que só tem olhos para mim; e é bem verdade que ele também pisca com muita frequência.