sábado, 28 de dezembro de 2013

LUA EM ESCORPIÃO


A lua hoje entrou em escorpião e vai permanecer por lá até domingo. Como se já não bastasse toda a desgraça que praguejo com gosto por não querê-la, embora agarre o que é ruim com força, a lua me presenteia com escorpiões. Dentre os males, a felicidade de não ser de peixes.
Na verdade, eu nem sabia desse movimento lunar. Depois que soube, também descobri que escorpião traria as trevas para minhas emoções. Soube assim: estava reclamando para um amigo sobre o fato de eu estar aparentemente normal emocionalmente, apesar de guardar um pouco mais de desânimo que o habitual; até falamos dos personagens que nos identificamos nos filmes, enalteci minha amadíssima Justine. Depois ele olha para mim, supôs que olhava, porque eu não o encarava para saber se de fato estava, e diz, sorrindo, que tudo é culpa da lua em escorpião.
Contestei dizendo que minha lua era em aquário, mas ele explicou que a lua, o próprio satélite, estava entrando em escorpião e que isso influenciaria as emoções de todos. Eu: ahhh, que desgraça, como se eu já não tivesse tido o bastante – mas eu sabia que esse bastante era meu normal, porém, como hobbie, queria reclamar do que fosse e do que não fosse.
Vesti-me com o fulgor, humildando o meu saber de si. Outro amigo ligou-me e sem mais nem menos gritou “você está chato e triste, que-que foi?”. Nem acreditou que era culpa da lua em escorpião. Mandei-o se danar, porque iria estar muito ocupado desenhando constelações, ou mesmo faria um ritual para que uma levíssima chuva caísse, e engoliria o veneno que escorregaria da cauda da constelação vigente. Eu chorei.
Estou triste e se me perguntarem por quais motivos, sem timidez, colocarei a culpa na lua. Apaziguarei minhas angústias fingindo que esqueço de todos os motivos, que sequer lembro. Nietzsche deve ter dito algo como ”se queres elevar-te, exercita a arte de esquecer”.
Das minhas amnésias, nunca esqueço o que forcei que lembrassem. Aprendi a elevar meus desânimos e dores para crescer meu ser - acostumar-se à dor dá a impressão de que não dói.
Minhas emoções são contraditórias e inexistentes. Os sentimentos ainda não nomeados.

Não quero mais falar, deixarei que a Lua, caso se livre do ferrão de escorpião, expresse que.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

NARALON

There was a time I was one of a kind
Lost in the world out of me myself and I
Was lonely then like an alien
I tried but I never figured it out
Why I always felt like a stranger in a crowd
(Alien: Britney Spears)


O dia estava chuvoso, caíam as nuvens lá fora, ou o céu estava permitindo ser tocado intimamente. Ele, sentado em frente à janela, olhava atentamente para os pingos da chuva refletidos nos poços de lama lá fora. Vez ou outra abria a boca para sentir o gosto de algumas gotas que batiam na janela de seu quarto e então se espalhavam e, como se fossem conduzidas por uma força cósmica do universo ou qualquer outra força sobrenatural, chegavam a sua boca.
Ele, que dormira tão bem, que nem teve sonhos, pois a vida parecia-lhe desvendar-se, estava imobilizado dentro de seus pensamentos avulsos, não conseguia se prender ao mais frívolo pensamento fluído – depois de tanto tempo treinando, tinha conseguido tal proeza. Abriu alguns milímetros a boca para receber outra gota de água perdida.
Noite passada, antes de dormir, sentiu-se fatigado. E de tanta fatiga acabou dormindo. O olhar atentamente para a “vida que parece desvendar-se” é algo assustador. Até se questionou por que sempre esperam que a vida seja sempre a mais bela paz de espírito ou qualquer determinação para uma paz interior; enganam-se. A verdade é que a vida assusta, ainda mais quando vai se desvendando – como se alguém soubesse sobre os detalhes que se escondem por entre as letras de v-i-d-a e corresse para longe delas, porque tocar a vida nos primeiros instantes pode ter mais estranhamento do que saber sobre a única previsão do destino que se esconde nos espaços das letras contrárias: m-o-r-t-e.
Uma nuvem carregada ousou ainda invadir seu quarto, pairando sob o teto, um céu particular para ele que estava acostumado com seu santuário dedicado à Oxum. Se inundasse o piso, subiria na cama para procurar conforto ou coragem antes de mergulhar.
Sentiu a garganta ainda seca e abriu mais a boca, agora com mais sede, como se estivesse diante de uma água que é ofertada e não pode ser bebida. A água lhe invadiu, mas não tinha sede, não queria beber água, pois estava queimando.
Fixou o olhar em um ponto secreto de uma nuvem e, dentro dele, procurava formas. Dentro de si, faziam outras. Ele, que nunca soubera muito bem dizer o que sentia, arriscava dizer que agora sentia fome, porém não gostaria de comer e quebrar com essa magnitude. Perplexo, moveu o olhar, pois aquela nuvem já tinha fugido há um longo tempo, nem mesmo a chuva pingava. Restava só um céu nublado às quinze da tarde, e ele continuava com sede e com fome, mas não quis levantar de onde estava.
Às pessoas que bateram na porta, disse somente que gostaria de ficar sozinho e que não precisavam ficar incomodados, estava bem, contente pela preocupação. Também disse que se sentia cheio, mas que se quisessem poderiam deixar um pouco de café que depois ele tomaria com leite e um pedaço de bolo.
Como quem faz algo sem saber que está fazendo, despretensiosamente inconsciente, levantou da cadeira e foi até o seu pequeno aparelho de som antigo, uma vitrola, e colocou um disco para tocar. Aproveitou, também, para comer o resto da barra de chocolate amargo.
Lembrou que tinha incensos guardados, então pegou quatro de essências diferentes: arruda, sal grosso, morango e alfazema. Esperou que todos estivessem fazendo uma fumaça divina e dançou nela, sob os cheiros confluídos; juntou a sua própria essência, dopou-se.
Voltou para a janela dançando cantos à Mãe D’água, encostou o cotovelo na beirada e a mão no queixo, inclinando um pouco a cabeça para o alto. Passou alguns minutos assim e foi acender mais alguns incensos. Os de morangos tinham acabado.
Sentou em sua cadeira e ficou assobiando.
De repente, percebeu a lua tinha invadido o seu quarto. Abriu a boca seca e ficou a esperar que outro pingo ousado chegasse aos seus lábios. E começou a chover forte. Os eventos sobrenaturais misturavam-se e ele já não sabia mais em que lenda ou vida real vivia. Ele começava a ficar saciado da sede, então colocou mais um pedaço de chocolate amargo na boca e a fechou como um túmulo egípcio cheio de surpresas a serem encontrados e que não serão.
Cansado, colocou seus pés no chão, primeiro as pontas dos dedos e depois foi encostando todo o solado no chão frio, sentindo a ausência de calor subir até o joelho, até o nível que seu quarto tinha inundado. Tirou seu pijama e jogou em cima da cama. Pulou a janela, só de roupa íntima, porque não queria mais estar rodeado pelo seco e infecundo. Como se tivesse um túnel com a mais bela luz brilhante no final, a pureza do sol, ele ficou olhando, sentindo aqueles pingos desordenados caindo das nuvens que estavam passando rapidamente.
Ainda estava sob o transe da fumaça, ou porque simplesmente gostava de imaginar. Cada prédio tornava-se uma árvore, todas elas formavam um corredor por onde ele saiu correndo para acompanhar as nuvens que iam fecundar outro lugar. Perigosas nuvens que enfrentavam os céus deslizando sobre ele até chegar ao ponto de se tornarem acariciáveis.
E de longe, uma distância incalculável, vindo do final da rua, até para quem estava vagando por lá não conseguia enxergar, um assobio ecoava. Como se alguém montado à cavalo fugisse dentro da melodia, repetindo I’m not alone, I’m not alone, I’m not alone.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

PISCADELA



           Então, doutor, vou falar exatamente como aconteceu. Mas fique o senhor sabendo que até já tentei contar algumas vezes, mesmo assim não me acalmo. Não gosto de ficar calma em uma situação dessas, quero uma boa confusão porque sou apaixonada por DR’s – discutir relação, se o senhor não sabe – como costumam falar. Não é bem que eu procure uma confusão, ela aparece. E André me dá motivos para isso: o desgraçado sabe que sou pouco ciumenta e ainda fica fazendo gracinhas e charminho por aí. Pior, ainda tem a cara de pau de dizer que sou fofa com raivinha, embora também fique emburrado quando lhe digo umas boas verdades – se quer uma puta, termine comigo primeiro porque não quero sair como a vaca chifrada da relação. 
            Ontem foi assim: saímos para um jantar elegante na casa de um amigo que ele arranjou pela empresa em que trabalha. Eu me arrumei toda porque queria que sentissem inveja da esposa que ele tem – e porque queria mostrar para todas as velhas solteiras de lá que esse homem já tinha uma mulher e que ela é bonita e gostosa. Lá encontramos um casal de amigos e sentamos em uma mesa para conversarmos.
         Enquanto compartilhava meus comentários sobre a festa e os convidados com minha querida amiga Joyce, André conversava com Antônio. Até esse momento estava tudo bem, pois eu não estava prestando muita atenção no que André fazia: ou avaliava o evento ou tomava conta de André. E pela minha inocente distração, André aproveitou para avaliar as convidadas do evento.
            Antônio levantou para conversar com outros convidados e André permaneceu na mesa com parte do rosto virado para a multidão, quase de costas pra mim. Eu não ia falar nada, porque não queria dar uma de deselegante na frente de Joyce – sei por altos que ela é uma fofoqueira sem rédeas, aumentaria qualquer pequena observação que eu tecesse a respeito do comportamento de meu marido. 
           Disfarcei a observação que fazia de André, segura de que não deixaria nada passar em branco. E não deixei mesmo. Mey, vou pegar uma taça de champanha, já retorno, disse-me o descarado. Não vou mentir que se fiz o que fiz foi porque eu estava agoniada. O incomodo subiu a minha cabeça e derrubei o barraco, o que seria melhor do que um par de chifres subir à cabeça.
        André caminhou em direção ao garçom que servia umas jovens – eram até bonitas, porém, por estarem apenas desabrochando por volta dos seus 23 anos, não tinham todo o néctar que uma mulher como eu tenho para oferecer. Uma taça na mão e um charme no rosto: André começou a conversar com aquelas moças (não sei que interesse, além de gaiatices, poderia ter). Aos meus olhos, ele estava querendo se roçar nas pernas das moças mais que um gato carente em busca de carinho, ou por puro alívio do cio. 
          A essa altura, Joyce já sabia o que estava acontecendo e estava até calada para me observar com mais atenção: essa velha, por não ter mais o que fazer, fica esperando por qualquer nova história. Ela ainda teve o afoito de dizer-me: que bonitas aquelas moças que estão conversando com André; de onde ele as conhece? Falou com tanta malícia que a boca velha deve ter se enchido de veneno – talvez não muito, por usar com tanta frequência.
         Joyce e eu estávamos de cumplicidade, pois bem sei que se ela visse alguma coisa que meus olhos estrábicos ousassem sucumbir ao meu medo de ver o que não queria, ela iria me avisar com uma satisfação bajuladora de uma boa serva.
          Então aconteceu: André piscou o olho pra uma loira. Eu, que não sou besta, levantei logo da cadeira deixando Joyce soltando suas malícias, e fui em direção ao grupo. E fiz confusão: gritei tantas indecências que apavorei a todos. Sou senhora decente, mas que nem por isso deixo de falar palavrões, ainda mais quando afastam as mágoas da garganta; e os urubus da minha carniça.
         Não vou lhe contar o que aconteceu com detalhes porque já estou mais calma, sabe? Embora ainda esteja magoada e sentida com André. Sou uma pessoa exigente e olhadelas para o lado não tolero. Aos meus sessenta anos e uma coisa dessas vêm me acontecer?! Ah não, doutor, sou mulher vivida e sei o que fazer. Mas vou chegar ao ponto que me trouxe aqui.
         Depois que disse tudo que pudesse constranger o grupo, e até a mim mesma, saí de forma drástica e dramática de perto deles, porque tinha que fazer com que André viesse correndo atrás de mim. Na pressa, bati meu dedo mindinho na perna de uma cadeira. Foi uma dor tão desgraçada que nem vou lhe contar. Imagina como são os ossos de uma mulher vivida como eu!
        Comecei a chorar, o que não estava nos meus planos – acho penoso ver velha chorando, mas não admito muito isso para mim porque não me vejo velha. Velhice é só estado de espírito, as rugas são estados do tempo. Então André me segurou firme e, carinhosamente, conduziu-me pra casa. Até gostei disso, mas também não disse.
          Tive uma noite de sono horrível, viu? Eu me mexia e o dedo doía. Pensei que tinha só machucado, mas Dedis disse que era melhor procurar um médico porque eu poderia ter quebrado. Tão atencioso meu marido! O senhor acredita que ele me explicou tudo direitinho? Dedis é carente demais e como eu não estava dando atenção para ele, pois conversava com Joyce, ele virou a cabeça pros lados para ver se conseguia chamar minha atenção. Percebeu que não deixei de conversar com minha colega e levantou-se para fazer ciúmes. Olhe só que mimado! Acreditei, afinal Dedis sempre diz que só tem olhos para mim; e é bem verdade que ele também pisca com muita frequência.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

AMOR SECRETO

Ela tinha nome de lua em inglês. A primeira vez que a vi eu tinha por volta dos treze ou catorze anos, auge de tanto desejo e tanto hormônio e tanto fogo. Não era mais virgem, mas também não me sentia como se não fosse, tinha sede e mais sede de sexo como se nunca o tivesse feito, porque, de fato, ainda não tinha considerado como se tivesse fodido. Eu era virgem, embora já tivesse trepado. Mas isso não vem ao caso. O nome, como disse, era Moon, nome artístico, de atriz.
Lembro bem da primeira vez que a vi, na casa de uma amiga de minha mãe. Vi sem poder ver; proibida para mim, vi toda sua nudez. E um cara metendo em todos os seus buracos. Desde então, sempre que possível, via Moon sendo tomada por aquele cara – querendo fazer parte daquilo. Não sei quantas vezes eu vi, mas acredito que muitas vezes em um período de um ano, até eu substituí-la ou parar de ver por me sentir culpado, essas coisas que parecem tão fortes na adolescência.
Moon veio à cabeça hoje, senti falta de quando me masturbava olhando para aquele pau grosso entrando em sua vagina, ou em seu ânus. Até invejava o cara. Ela não era bonita, mas tinha algo que atraía, estava além da sensualidade que vendia. Hoje, como já não tinha mais como vê-la da forma como antes, procurei sua carreira pela internet. Então tomei um susto.
Moon morreu dois anos atrás, não tive coragem de procurar a causa de sua morte. Fiquei tão chocado que não consegui me masturbar ao ver seus filmes, nem mesmo aquele que vi pela primeira vez. Como se algo dentro de mim também estivesse morrido, embora acredite em um movimento inverso.
Comecei a ter curiosidade para saber a mulher que era Lindsay – de seu personagem, sabia o necessário, que dava por dinheiro e prazer. Mas não tive coragem para pesquisar sobre a Lindsay, não tenho. Se de fato morreu, também não quero saber. Acho mesmo é que fiquei impressionado ou me sentindo culpado por querer me masturbar vendo uma mulher que já foi enterrada.
Aqueles sentimentos de culpa da adolescência juntando-se com a palavra necrofilia. Será que eu se eu um dia tivesse conhecido pessoalmente Moon eu teria tido meu momento de Solfieri? Masturbei-me algumas horas depois vendo o mesmo vídeo de Moon que vi pela primeira vez. Ora sentia nojo da necrofilia em meus pensamentos, ora sentia-me só um adolescente explodindo de vontade de trepar.
De um momento para o outro, depois da goza, tudo fica tão aguçado. Talvez eu não estivesse com vontade de ver a atriz dando, talvez eu só quisesse ver o pau do ator, sabe-se lá. Tive nostalgia de algo que não me pertenceu: Moon pode até ter morrido, mas eu estou aqui inteirinho. E cheio de intenções.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Decência Imoral



Fiz-lhe uma proposta indecente, dessas que não se conta ao perdão do padre. Não é que seja um absurdo, embora um pecado mortal. Agora mesmo estou pecando, ri ao dizer pecado mortal com a boca cheia de malícia e estalando. Acho que o riso frouxo veio do desejo de continuar querendo tal pecado mortal; e, depois de tê-lo possuído, orgulhar-se em júbilo de ter pecado – em remorso, diria que não pequei e assim estaria livre de meus julgamentos. Se eu me acusasse a temer por dizerem que estou profanando, persuadir-me-ia a não acreditar em pecados. Indecência nem é pecado, é?
Que Deus me perdoe as heresias e as blasfêmias; meu problema não é Contigo, ó Senhor. Julgarás segundo a Sua vontade de qualquer modo, mas olhai com seu imenso amor àqueles que blasfemam pela fé. Olhai também para aqueles que justificam o que não compreendem com o uso do Seu nome (sei bem que usar seu santo nome em vão é pecado). Não pedirei para que olhe para mim, mesmo que seja onipresente, porque não sou egoísta; desejo mais amor aos outros. Atendei!
Valendo-me até de Nossa Senhora, esqueci-me do pecado depois de tanta prece.
Pensei na noite lá fora, estou a escutar Wake Up Alone – Amy Winehouse conhecia os amores e os desamores; também os sabores dos drinks. Agora mesmo gostaria de uma máquina escrever, ou uma pena de bico fino e tinta – os prefiro ao computador, soam românticos das gerações passadas, sou de uma segunda geração –, a tecnologia assusta aquilo que chamo de potencial ou inspiração (por vezes, tomo-os como sinônimos, mas não são). Uso lapiseira e uma folha qualquer – e depois sagrada de mim.
Gostaria de fazer meus sonhos essa noite, predizer fábulas de leões e carneiros; porém, tudo foi filtrado pelos apanhadores de sonhos. Tenho um apanhador de sonhos em frente ao espelho. Não sei o porquê, mas achei bonito olhar o reflexo dos sonhos apanhados, estáticos no outro lado do espelho que é o mesmo que o nosso, mas não o tocamos. Cometi um erro, nem sei mais se é isso o que eu acho sobre os sonhos e o espelho, ou se só falei para dar uma explicação. Tenho mania de compreensão, mesmo sabendo que não apanho nenhuma; até finjo querer ser compreendido, mas é só fingimento.
Minha indecência foi recusada – tremi de dor narcísica ferida. É assim: querer ser forte para não admitir que algo está doendo; e ela dói mais ainda. Ou assim: querer pregar o desapego do que se constituiu narcísico e, quando o constituído sai em liberdade, o apego aperta a garganta, pois o desapego foi só uma mentira para que o preso fique sem saber que estava em uma alcova. Dói; e também é culposo. Acho que isso é que é pecado, até fere a alma. Perdoe-me, Alguém.
Pretendi repetir a proposta a fim de conferir se não tinha tomado o aceito como uma recusa. Vez ou outra isso me ocorre; no meu íntimo, têm coisas que ofereço que são para ser recusadas – nem por educação eu as ofereço, devo oferecer por simpatia que não compreendo. Vacilei, tremi e não propus: dor narcísica também é saúde.
Bem sei que não se tratava de uma condição: ou eu ou. Também saber e compreender não faz com que as ações mudem – e isso eu não quero explicar e quero ser compreendido.
O que escrevo não se aplica; também é tudo introspecção e tão pouco há de coerência. Até quando isso, Joana?! (poderia ter sido qualquer nome, só queria uma frase pontuada com “?!”)
Iria compartilhar a proposta indecente, falar tanto sobre ela até que pudesse virar decente; mas por tudo que me ocupei de discorrer, finjo que já esqueci – eu disse que não era pecado tampouco heresia. Eu me usei e me gastei para aliviar minha própria angústia com duas ou três palavras, também estou usando quem um dia possa ler esse escrito; se não tiver uma angústia, tome a minha. Umas eu contei e outras foi Amy quem me disse. E amanhã acordarei sozinho.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A DESPRETENSIOSA FELICIDADE DE UMA SOLIDÃO



Hoje acordei sozinho. Até poderia ter dito acordei sozinho de novo, porque têm alguns dias que não acordo acompanhado, embora deva dizer que mesmo acordando sozinho, sentia-me acompanhado. Não hoje. Tristeza não me acompanha agora, nem sentar para tomar um drink ela gostaria. Sente-se, angústia; acompanhe-me, solidão.
Por alto, sei que parece muito drama ou sofrimento o que conto – não sei a quem conto, talvez a mim mesmo –, mas eu não estou dramatizando o sofrer. Por que deveria estar triste por todas as coisas estúpidas que não fizemos? Há um tempo não tenho escrito, acho que estava morto por não entrar em contato com alguma coisa que se toca quando escrevemos: o que costumeiramente não sabemos sentir; às vezes, escrever dói. Às vezes, escrever é exibir uma tatuagem que está desenhada no perispírito. Acordei sozinho e comecei a dançar com os dedos: solidão busca companhia, quis presentear-me com o luxo de dar vida a alguns personagens, porém ficaram com suas histórias pela metade. Uma parte de mim persiste em acreditar que o pessimismo aflora o sentimento de conforto e felicidade. Como? É como quando estamos com muita fome e qualquer comida que aparece tem o melhor sabor do mundo.
É feriado e... – uma pausa, pois telefone está tocando... Desculpe a demora, mas era importante. Um dia relato a ligação – é feriado e poderia ter ficado deitado, porém quis contemplar o “acordar sozinho” de pé: eu e minha solidão. Eu amo esperar, antecipado, pelo que não vem. Quem nunca esperou uma carta e só recebeu uma conta de energia? Eu esperava por uma tarde na praia e algumas poses ridículas para fotos.
Hoje parece domingo, é dia de Corpus Christi – deve ser por isso a semelhança. Não costumo achar empolgação nos domingos, também porque são dias que o Senhor fez para o descanso. Hoje é quinta-feira, 30 de maio de 2013. A data não tem importância, porque em outro dia qualquer, em um domingo ou em uma quarta, irei acordar com o mesmo sentimento e será atual como aqui-agora; nem lembrarei que “acordei sozinho no dia 30 de maio de 2013”.
Estou até sorrindo, meio alegre, da data. Nem sei por que, embora seja assim como pode surgir a felicidade: coça nos lábios uma sensação esquisita de querer sorrir pelo nada. Acho que é do nada que vem a felicidade; não a felicidade sem motivos, mas aquela em que não rimos pra encontrar outro motivo pra rir. É apenas um querer mostrar os dentes para si e fazer hahahahahaha. Volto a dizer que acordei sozinho em uma quinta-feira que parece domingo – com o mesmo tédio.
Vou, ao menos, tomar uma xícara de café amargo com duas fatias de pão e ser sozinho com a barriga cheia. Amanhã acordarei sozinho e lembrarei de que o feriado se estendeu – a sexta-feira foi apertada – e de que não terei de ir trabalhar. Agora, até sorri antecipadamente por amanhã. Ah, antes que eu me esqueça, na ligação eu ouvi um “eu te amo”.
Fábio Pinheiro Pacheco

domingo, 10 de março de 2013

Jornal da Manhã - Marília - SP, 10 de março de 2013

Jornal da Manhã - Marília - SP, 10 de março de 2013


Quando a dor de uma topada consegue ir além da cabeça do dedão do pé e atinge os pensamentos, é sinal de que alguma filosofia está por vir – seja praguejando, chorando ou mesmo clamando aos santos os porquês de tal ocorrido. Foi em uma dessas topadas que a sede me consumiu. Falo da sede de valorização das diversidades humanas. Por que tal sede? Não sei, mas não é só por falta de chuvas ou excesso delas que estamos diante das sedes que nada tem a ver com ingestão de água. Dia desses, noticiavam nos jornais secas no Sul e, como de costume, no Nordeste; além de fortes enchentes pelo Sudeste e outros eventos naturais ao longo do país. Com meu ar indiferente à indiferença disfarçada por preocupação, desliguei a televisão e fui caminhar pelo quintal semiárido, rodeado por aquela vegetação sequinha que normalmente está exposta nos livros didáticos para exemplificar a caatinga. Foi com a mão subindo à boca para sufocar um grito advindo de um tropeço em um galho de uma árvore qualquer que percebi o que eu já sabia e nunca tinha prestado atenção: nós – nordestinos, sulistas, ou de qualquer outra região – estamos necessitando mesmo é que encham o nosso ego pelo que temos de bom, pelas nossas diversidades culinárias, artísticas, culturais etc. As secas ou as enchentes estão por aí, sim, como sempre estiveram, seja em menor ou maior grau. E o sentimento de generosidade brasileira noticiado, por vezes, só serviu para rotular cada estado como portador de alguma necessidade. Mas a necessidade maior é o reconhecimento no que esses estados têm para oferecer, mesmo diante das dificuldades climáticas, geográficas e outras terminologias científicas das quais não conheço. A pena pela falta de água ou excesso dela desdobra-se em pouco conhecimento sobre como nos viramos para sobreviver diante tais adversidades. O que precisamos? Talvez que apenas se deem oportunidades de se permitirem entrar em contato com o que somos. Temos sede de comunhão de nação, da tal nação brasileira. Sufoquei o grito, mas não abafei minha revolta filosófica, pois na minha filosofia usei até palavras que parecia não saber usar. Eu, que não sei ler ou escrever, estava parecendo um poeta, um homem das palavras. E tudo isso por me sentir inundado por uma indignação pela exploração da imagem de “gente sofrida”. A notícia é importante, mas não para rotular mais ainda o status que cada estado já parece ter: seco, rico, atrasado, pobre, chuvoso entre outros. Sinto sede é de solidariedade que está além de um sentimento de pena. Quisera eu que a prepotência brasileira levasse um tropeço e com isso filosofasse a respeito das maiores precisões dos estados brasileiros: um reconhecimento das características singulares de cada região que, quando somadas, destacam os aspectos do que torna um brasil o Brasil, de fato. Foi ao sentir minha filosofia dissipar-se com a dor no dedão que sentei em uma cadeira no alpendre e pedi para que minha filha escrevesse minhas palavras, tortas e doloridas. Ao final de tudo, existe mesmo uma seca; não por falta de água, aquela composição de duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. É inegável que exista uma seca no Nordeste, mas há também uma seca porque assim fizeram de nós, enquanto por dentro enchemos o peito de alguma coisa que ainda não tem nome, mas é sinônimo de felicidade por estar de braços abertos à luta. A seca, no fundo, é reflexo da falta de olhos curiosos voltados para as riquezas que cada povo constrói: modo de ser, sentir e viver.
 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

ANSEIO DE UMA NOITE DE FEVEREIRO



[...] A maior aspiração era de romper a mata, transformar-se em vento; não, ser folha seca no ar. Saltar a cerca, rasgando parte da calça de propósito para deixar vestígio de uma fuga: indícios de que alguém estaria se encontrando da perda. Na mata, iria beber o vazio para ficar satisfeito com esse conhecimento de que é oco o vazio – e cheio de si.
Ansiava, fervorosamente, queimar-se naquele vento que vinha de uma mata escura, cujos segredos noturnos e místicos da caatinga irrompem os próprios segredos; como o fundo do mar sem água. Ressaltava [...].


 

Trecho de um conto escrito com muita saudade e anseio.