domingo, 18 de abril de 2010

Consigo

Manhã.
— Há algum tempo te percebo estranho. Por quê?
— Não sei explicar.
— Como não sabe?
—Não se pode definir e tomar consciência do que talvez não exista.
— Se não existisse, não me ocuparia pensando sobre. Mas se, de fato, soubesse tudo sobre a existência, não me ocuparia em pensar sobre todas as possibilidades que são certas: quero o doce da dúvida!
            Silêncio. Alguns minutos vagando sem se apegar a algum pensamento fixo.
— Ai, ai, ai... Bruno!
— Não suporto esses “ai, ai, ai...”! Tenho que me livrar deles.
— Então, o que está fazendo agora, caro amigo?
            Silêncio.
— Pensando.
— Posso continuar interrompendo?
— Não seria eu se não fizesse algo que me perturbe.
— O que estou sentindo?
— Alguma espécie de frio que acontece em dia quente e chuvoso. Também alguma espécie de vazio que a gente não dizer absolutamente nada sobre ele quando nos é perguntado.
— Não entendi.
— Vamos fingir que a vida não teria graça se o mistério da morte fosse desvendado, assim como eu também não teria graça se me conhecesse.
Silêncio. Suspiros. Olhar fixo em uma folha em branco. A redação que nunca começou.
— Essas respostas me parecem sempre pontos de interrogação.
— Talvez porque elas não sejam respostas.
— Não compreendo e tenho medo de entender esse ar enigmático que nós criamos. Predemo-nos nele e não sabemos mais como sair, isso sim.
— Há mistérios em nós? Talvez seja verdade a prisão.
— Como não haveria?
— Não, não há. Há essência forte que nos deixa sem sentir os pequenos e específicos cheiros do mundo.
— O tempo todo eu estou buscando...
— Por que você tem que ficar buscando algo quando, por vezes, já tem. Suas respostas já foram dadas.
— Foram? Quando?
— Quando? E se eu berrasse? Uivasse? Eu continuo martelando em seus ouvidos, embora você tente me barrar.
            Silêncio. Ar entrando e saindo dos pulmões.
— Então... Não sei se devo...
— Absurdo! Quais são os aspectos que nos conduz ao “não sei se devo?” Francamente, temos o dever de ser, podemos nos livrar de uma fantasiosa e falsa identidade ideológica! Absurdo é subjugar o “dever ser” em “não sei se devo”. Isso sim.
 – Ai, ai, ai...
 – Essa é a dor que sabemos sentir.
            Parou.
— Bruno, você poderia me ajudar com essa questão?
            Os pensamentos foram abafados pela voz e sua consciência tornou-se espaços em branco a ser preenchido com um novo assunto que não era seu.
— Claro, Catarina

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