Manhã.
—
Há algum tempo te percebo estranho. Por quê?
—
Não sei explicar.
—
Como não sabe?
—Não
se pode definir e tomar consciência do que talvez não exista.
—
Se não existisse, não me ocuparia pensando sobre. Mas se, de fato, soubesse
tudo sobre a existência, não me ocuparia em pensar sobre todas as
possibilidades que são certas: quero o doce da dúvida!
Silêncio. Alguns minutos vagando sem
se apegar a algum pensamento fixo.
—
Ai, ai, ai... Bruno!
—
Não suporto esses “ai, ai, ai...”! Tenho que me livrar deles.
—
Então, o que está fazendo agora, caro amigo?
Silêncio.
—
Pensando.
—
Posso continuar interrompendo?
—
Não seria eu se não fizesse algo que me perturbe.
—
O que estou sentindo?
—
Alguma espécie de frio que acontece em dia quente e chuvoso. Também alguma
espécie de vazio que a gente não dizer absolutamente nada sobre ele quando nos
é perguntado.
—
Não entendi.
—
Vamos fingir que a vida não teria graça se o mistério da morte fosse
desvendado, assim como eu também não teria graça se me conhecesse.
Silêncio. Suspiros. Olhar fixo em uma
folha em branco. A redação que nunca começou.
—
Essas respostas me parecem sempre pontos de interrogação.
—
Talvez porque elas não sejam respostas.
—
Não compreendo e tenho medo de entender esse ar enigmático que nós criamos. Predemo-nos
nele e não sabemos mais como sair, isso sim.
—
Há mistérios em nós? Talvez seja verdade a prisão.
—
Como não haveria?
—
Não, não há. Há essência forte que nos deixa sem sentir os pequenos e
específicos cheiros do mundo.
—
O tempo todo eu estou buscando...
—
Por que você tem que ficar buscando algo quando, por vezes, já tem. Suas
respostas já foram dadas.
—
Foram? Quando?
—
Quando? E se eu berrasse? Uivasse? Eu continuo martelando em seus ouvidos, embora
você tente me barrar.
Silêncio. Ar entrando e saindo dos
pulmões.
—
Então... Não sei se devo...
—
Absurdo! Quais são os aspectos que nos conduz ao “não sei se devo?” Francamente,
temos o dever de ser, podemos nos livrar de uma fantasiosa e falsa identidade
ideológica! Absurdo é subjugar o “dever ser” em “não sei se devo”. Isso sim.
– Ai, ai, ai...
– Essa é a dor que sabemos sentir.
Parou.
—
Bruno, você poderia me ajudar com essa questão?
Os pensamentos foram abafados pela
voz e sua consciência tornou-se espaços em branco a ser preenchido com um novo
assunto que não era seu.
— Claro, Catarina
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