quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Antes das pedras





Meu queridíssimo, tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor. Deste-me a maior felicidade possível. Fostes em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou destruindo a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler. O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.


V.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

EU TE LIBERTO, TU ME LIBERTAS. NÓS VOAMOS.

- Você me encontrou rápido. Estou com medo dessa alegria repentina.
- Eu não te procurava. Estranho, não é?
- Muitíssimo. Eu também já não esperava, penso que foi isso que fez você chegar rápido.
- E agora, o que a gente faz?
- Acho que nós ainda não falamos quem somos.
- É... acho que também não queremos saber. Acho que mesmo é que somos o que fazemos a partir de agora.
- Tu acredita mesmo nisso, na gente que se gosta sem nem se conhecer?
- Acredito. E acredito, sobretudo, porque quando olho nos teus olhos não estou querendo ver o que é meu, muito menos o que me falta.
- E você me aceita assim?
- Aceito.
(Silêncio).
- Fala alguma coisa.
- Prefiro ouvir você falar.
- Tudo bem. Eu gosto do silêncio.
- Eu também.
(Riso constrangido).
- Vamos?
- Vamos.
- Para onde?
- Não sei. Você quem me chamou.
- Pensei que você soubesse para onde estava me levando.
- Parece doido, mas me sinto passageiro.
- Mas eu não sei para onde estou indo.
- É melhor quando a gente não sabe.
(Juntaram as mãos e voaram sobre o mar, deixaram-se levar pela brisa entre a luz da lua, das estrelas e de seus reflexos).