terça-feira, 28 de dezembro de 2010

PRIMEIRO AMOR*

Sentada em uma cadeira de balanço, Irene, cuja aparência mudara muito no decorrer dos anos – agora parecia uma mulher de feições tristes, o contrário daquela garota de dezessete anos que transbordava alegria em suas crises de impaciência –, segurava uma pequena caixa de madeira. Vez ou outra abria a caixa e sentia seus olhos lacrimejarem, fruto de uma rajada de recordações que aquele objeto empoeirado disseminava sobre seus olhos.
Eles se conheceram na praia. Irene nunca tinha acreditado em amor à primeira vista, mas aquele garoto quebrava todos os padrões de vida que ela pensava ter construído ao longo de seus dezoito anos – terminar o colegial, cursar História, ganhar estabilidade financeira, não casar.
Foi mais ou menos assim: olá, qual o seu nome? Onde mora? Está gostando de Fortaleza? O que gosta de fazer?... Também gostei de te conhecer... Fotos; número; encontro? Legal.
Ela estava feliz com tudo aquilo. Era a primeira vez que se sentia atraída por um garoto — não que preferisse as garotas, mas costumava achar que os meninos eram nojentos demais para se envolver com eles; e aquele com quem paquerava em sua cidade natal era apenas para saber como adolescentes se sentiam. Logo no dia seguinte ao primeiro encontro com Romeu, ela o ligou. Usou como desculpa uma história de querer um guia para levá-la aos pontos turísticos da cidade, mas ambos sabiam das reais intenções. Ele gostava disso.
Irene vestia uma calça jeans apertada, tênis all star e uma blusa preta. Jeans apertados, blusa branca e tênis all star vermelho: Romeu não precisava ser assim para ganhar o afeto de Irene, mas assim era. No olhar de Irene, foi uma tarde incrível. Conversaram, riram, tiraram fotos, beijaram-se. E a imediatez de sua vida, que outrora fora medida, trouxe uma paixão; tão cedo.
Décimo oitavo dia: praia, carinho, beijo, mão, beijo, conversa, carinho. Tornara-se mulher – eufemismo poético linguístico.
Irene fechou a sua caixinha encantada e a colocou novamente em cima do guarda-roupa. Parte das lembranças daqueles vinte dias de sua vida já era o bastante naquele momento. Ela foi para a cozinha, precisava fazer a comida do marido e do filho. Fazia tudo como sempre fazia, habituada às emoções que chegaram a sua vida e nunca mais quiseram partir.
Minutos depois, Irene virou o rosto para a direção da qual veio o som da porta batendo. Como um dia atípico que por vezes se repete, a chegada de seu marido e de seu filho a colocou dentro da caixa de recordações.
Irene não sabia como se sentir, tivera o melhor dia de sua vida. Não conseguia acreditar que era merecedora de tanta felicidade. Quando chegou ao hotel, não quis tomar banho, beber água ou mesmo comer – de tão cheia de si. Correu para o seu quarto e deitou na cama. Passou todo o resto da noite, até dormir, abraçada com um travesseiro.
No dia seguinte, assim que abriu os olhos, Irene ligou para Romeu. Ficou frustrada ouvindo a secretária eletrônica falando em seu ouvido. Assim foi o dia inteiro, até que ela pudesse dormir como consequência do cansaço de todas as tentativas ininterruptas e também de toda sede, fome e frustração acumuladas.
Já chegara ao vigésimo dia. Irene tinha que partir à noite, porém não queria ir embora sem falar com Romeu. Tentou, desesperadamente e várias vezes, ligar para ele, mas as ligações só caíam na caixa postal. Então resolveu procurá-lo em todos os lugares nos quais haviam frequentados juntos. Nada. Irene sentia-se esgotada. Por que isso está acontecendo? Será que eu fiz algo de errado? Entre outras perguntas que falava para a secretária eletrônica e para a sua própria imagem no espelho. Ela não queria acreditar nas respostas dadas aos seus questionamentos, principalmente por colocar em seu discurso choroso tudo aquilo que eles viveram juntos e mimimimi e nhêm nhêm e outras juras românticas e apaixonadas e que agora eram sofridas e que doíam e que a faziam pensar que ela foi uma adolescente ridícula e que tinha agido inconsequentemente e que ela estava sofrendo por amor e que estava duplamente triste e.
A noite estava chegando, assim como a hora de partir para de onde veio, e ela ainda não tinha conseguido falar com ele até que seu celular enfim toca. É Romeu! É Romeu! Enfim me mandou uma mensagem, saltitava e previa o acontecimento. A mensagem era composta por frases curtas e palavras simples e direta, algo como se ainda não tiver caído a sua ficha, que ela agora caia de vez. Fizemos o que deveríamos ter feito e isso foi tudo. Boa viagem. Romeu”.
Os olhos de Irene pareciam ter sido afundados em grande lago de água salgada. Seu corpo estava quebrado depois daquela onda de abandono. Como pude ter sido tão idiota? Como não percebi que estava sendo usada? E a cada novo questionamento que ousava fazer para si mesma, mais Irene afundava em angústia e lembrava-se de todas as histórias vividas por suas amigas.
– Mãe, a senhora está bem?
Irene despertou. Passou as mãos nos olhos para enxugar as pequenas gotículas de lágrimas que haviam surgido e foi colocar o jantar de sua família. Embora o amasse, mas não soubesse como demonstrar, Irene sentia-se duplamente torturada em ter que olhar todos os dias para aquele garoto. Ele, definitivamente, não tinha culpa. Nem ao menos sabia. Henrique foi criado por um homem que sempre o deu muito afeto, ainda mais por acreditar que aquele garoto era seu grande herdeiro. Mas ela sabia a verdade e isso era o que mais lhe doía.
Henrique foi até sua mãe e a abraçou. Ela tremeu com o gesto e se afastou de modo a deixar claro que estava ocupada colocando o jantar. O filho se afastou sem se sentir desprezado; os anos o tinha feito acostumado.
Irene pegou os pratos e levou para a mesa, onde sua família esperava. Sentou e tratou de bloquear seus ouvidos para o som das vozes, principalmente para a de Henrique. Ele tinha o mesmo timbre da do pai. E assim a noite foi passando até que Irene pudesse dormir e descansar bem a cabeça. Teria o mesmo dia atípico em todos os dias dos anos seguintes, sempre esperando pelo momento em que as dores do primeiro amor morressem junto com ela.

* Conto presente na obra E são feitos meus amores.

domingo, 18 de abril de 2010

Consigo

Manhã.
— Há algum tempo te percebo estranho. Por quê?
— Não sei explicar.
— Como não sabe?
—Não se pode definir e tomar consciência do que talvez não exista.
— Se não existisse, não me ocuparia pensando sobre. Mas se, de fato, soubesse tudo sobre a existência, não me ocuparia em pensar sobre todas as possibilidades que são certas: quero o doce da dúvida!
            Silêncio. Alguns minutos vagando sem se apegar a algum pensamento fixo.
— Ai, ai, ai... Bruno!
— Não suporto esses “ai, ai, ai...”! Tenho que me livrar deles.
— Então, o que está fazendo agora, caro amigo?
            Silêncio.
— Pensando.
— Posso continuar interrompendo?
— Não seria eu se não fizesse algo que me perturbe.
— O que estou sentindo?
— Alguma espécie de frio que acontece em dia quente e chuvoso. Também alguma espécie de vazio que a gente não dizer absolutamente nada sobre ele quando nos é perguntado.
— Não entendi.
— Vamos fingir que a vida não teria graça se o mistério da morte fosse desvendado, assim como eu também não teria graça se me conhecesse.
Silêncio. Suspiros. Olhar fixo em uma folha em branco. A redação que nunca começou.
— Essas respostas me parecem sempre pontos de interrogação.
— Talvez porque elas não sejam respostas.
— Não compreendo e tenho medo de entender esse ar enigmático que nós criamos. Predemo-nos nele e não sabemos mais como sair, isso sim.
— Há mistérios em nós? Talvez seja verdade a prisão.
— Como não haveria?
— Não, não há. Há essência forte que nos deixa sem sentir os pequenos e específicos cheiros do mundo.
— O tempo todo eu estou buscando...
— Por que você tem que ficar buscando algo quando, por vezes, já tem. Suas respostas já foram dadas.
— Foram? Quando?
— Quando? E se eu berrasse? Uivasse? Eu continuo martelando em seus ouvidos, embora você tente me barrar.
            Silêncio. Ar entrando e saindo dos pulmões.
— Então... Não sei se devo...
— Absurdo! Quais são os aspectos que nos conduz ao “não sei se devo?” Francamente, temos o dever de ser, podemos nos livrar de uma fantasiosa e falsa identidade ideológica! Absurdo é subjugar o “dever ser” em “não sei se devo”. Isso sim.
 – Ai, ai, ai...
 – Essa é a dor que sabemos sentir.
            Parou.
— Bruno, você poderia me ajudar com essa questão?
            Os pensamentos foram abafados pela voz e sua consciência tornou-se espaços em branco a ser preenchido com um novo assunto que não era seu.
— Claro, Catarina