Sentada
em uma cadeira de balanço, Irene, cuja aparência mudara muito no decorrer dos
anos – agora parecia uma mulher de feições tristes, o contrário daquela garota
de dezessete anos que transbordava alegria em suas crises de impaciência –,
segurava uma pequena caixa de madeira. Vez ou outra abria a caixa e sentia seus
olhos lacrimejarem, fruto de uma rajada de recordações que aquele objeto
empoeirado disseminava sobre seus olhos.
Eles se
conheceram na praia. Irene nunca tinha acreditado em amor à primeira vista, mas
aquele garoto quebrava todos os padrões de vida que ela pensava ter construído
ao longo de seus dezoito anos – terminar o colegial, cursar História, ganhar
estabilidade financeira, não casar.
Foi mais
ou menos assim: olá, qual o seu nome?
Onde mora? Está gostando de Fortaleza? O que gosta de fazer?... Também gostei
de te conhecer... Fotos; número; encontro? Legal.
Ela
estava feliz com tudo aquilo. Era a primeira vez que se sentia atraída por um
garoto — não que preferisse as garotas, mas costumava achar que os meninos eram
nojentos demais para se envolver com eles; e aquele com quem paquerava em sua
cidade natal era apenas para saber como adolescentes se sentiam. Logo no dia
seguinte ao primeiro encontro com Romeu, ela o ligou. Usou como desculpa uma
história de querer um guia para levá-la aos pontos turísticos da cidade, mas
ambos sabiam das reais intenções. Ele gostava disso.
Irene
vestia uma calça jeans apertada, tênis all
star e uma blusa preta. Jeans apertados, blusa branca e tênis all star vermelho: Romeu não precisava
ser assim para ganhar o afeto de Irene, mas assim era. No olhar de Irene, foi
uma tarde incrível. Conversaram, riram, tiraram fotos, beijaram-se. E a
imediatez de sua vida, que outrora fora medida, trouxe uma paixão; tão cedo.
Décimo
oitavo dia: praia, carinho, beijo, mão, beijo, conversa, carinho. Tornara-se
mulher – eufemismo poético linguístico.
Irene
fechou a sua caixinha encantada e a colocou novamente em cima do guarda-roupa.
Parte das lembranças daqueles vinte dias de sua vida já era o bastante naquele
momento. Ela foi para a cozinha, precisava fazer a comida do marido e do filho.
Fazia tudo como sempre fazia, habituada às emoções que chegaram a sua vida e
nunca mais quiseram partir.
Minutos
depois, Irene virou o rosto para a direção da qual veio o som da porta batendo.
Como um dia atípico que por vezes se repete, a chegada de seu marido e de seu
filho a colocou dentro da caixa de recordações.
Irene
não sabia como se sentir, tivera o melhor dia de sua vida. Não conseguia
acreditar que era merecedora de tanta felicidade. Quando chegou ao hotel, não
quis tomar banho, beber água ou mesmo comer – de tão cheia de si. Correu para o
seu quarto e deitou na cama. Passou todo o resto da noite, até dormir, abraçada
com um travesseiro.
No dia
seguinte, assim que abriu os olhos, Irene ligou para Romeu. Ficou frustrada
ouvindo a secretária eletrônica falando em seu ouvido. Assim foi o dia inteiro,
até que ela pudesse dormir como consequência do cansaço de todas as tentativas
ininterruptas e também de toda sede, fome e frustração acumuladas.
Já
chegara ao vigésimo dia. Irene tinha que partir à noite, porém não queria ir
embora sem falar com Romeu. Tentou, desesperadamente e várias vezes, ligar para
ele, mas as ligações só caíam na caixa postal. Então resolveu procurá-lo em
todos os lugares nos quais haviam frequentados juntos. Nada. Irene sentia-se
esgotada. Por que isso está acontecendo?
Será que eu fiz algo de errado? Entre outras perguntas que falava para a
secretária eletrônica e para a sua própria imagem no espelho. Ela não queria
acreditar nas respostas dadas aos seus questionamentos, principalmente por
colocar em seu discurso choroso tudo aquilo que eles viveram juntos e mimimimi
e nhêm nhêm e outras juras românticas e apaixonadas e que agora eram sofridas e
que doíam e que a faziam pensar que ela foi uma adolescente ridícula e que tinha
agido inconsequentemente e que ela estava sofrendo por amor e que estava
duplamente triste e.
A noite
estava chegando, assim como a hora de partir para de onde veio, e ela ainda não
tinha conseguido falar com ele até que seu celular enfim toca. É Romeu! É Romeu! Enfim me mandou uma
mensagem, saltitava e previa o acontecimento. A mensagem era composta por
frases curtas e palavras simples e direta, algo como “se ainda não tiver caído a sua ficha,
que ela agora caia de vez. Fizemos o que deveríamos ter feito e isso foi tudo.
Boa viagem. Romeu”.
Os olhos
de Irene pareciam ter sido afundados em grande lago de água salgada. Seu corpo
estava quebrado depois daquela onda de abandono. Como pude ter sido tão idiota? Como não percebi que estava sendo usada?
E a cada novo questionamento que ousava fazer para si mesma, mais Irene
afundava em angústia e lembrava-se de todas as histórias vividas por suas
amigas.
– Mãe, a
senhora está bem?
Irene
despertou. Passou as mãos nos olhos para enxugar as pequenas gotículas de
lágrimas que haviam surgido e foi colocar o jantar de sua família. Embora o
amasse, mas não soubesse como demonstrar, Irene sentia-se duplamente torturada
em ter que olhar todos os dias para aquele garoto. Ele, definitivamente, não
tinha culpa. Nem ao menos sabia. Henrique foi criado por um homem que sempre o
deu muito afeto, ainda mais por acreditar que aquele garoto era seu grande
herdeiro. Mas ela sabia a verdade e isso era o que mais lhe doía.
Henrique
foi até sua mãe e a abraçou. Ela tremeu com o gesto e se afastou de modo a
deixar claro que estava ocupada colocando o jantar. O filho se afastou sem se
sentir desprezado; os anos o tinha feito acostumado.
Irene
pegou os pratos e levou para a mesa, onde sua família esperava. Sentou e tratou
de bloquear seus ouvidos para o som das vozes, principalmente para a de
Henrique. Ele tinha o mesmo timbre da do pai. E assim a noite foi passando até
que Irene pudesse dormir e descansar bem a cabeça. Teria o mesmo dia atípico em
todos os dias dos anos seguintes, sempre esperando pelo momento em que as dores
do primeiro amor morressem junto com ela.
* Conto presente na obra E são feitos meus amores.