Fiz-lhe
uma proposta indecente, dessas que não se conta ao perdão do padre. Não é que
seja um absurdo, embora um pecado mortal. Agora mesmo estou pecando, ri ao
dizer pecado mortal com a boca cheia
de malícia e estalando. Acho que o riso frouxo veio do desejo de continuar
querendo tal pecado mortal; e, depois de tê-lo possuído, orgulhar-se em júbilo
de ter pecado – em remorso, diria que não pequei e assim estaria livre de meus
julgamentos. Se eu me acusasse a temer por dizerem que estou profanando,
persuadir-me-ia a não acreditar em pecados. Indecência nem é pecado, é?
Que
Deus me perdoe as heresias e as blasfêmias; meu problema não é Contigo, ó
Senhor. Julgarás segundo a Sua vontade de qualquer modo, mas olhai com seu
imenso amor àqueles que blasfemam pela fé. Olhai também para aqueles que
justificam o que não compreendem com o uso do Seu nome (sei bem que usar seu
santo nome em vão é pecado). Não pedirei para que olhe para mim, mesmo que seja
onipresente, porque não sou egoísta; desejo mais amor aos outros. Atendei!
Valendo-me
até de Nossa Senhora, esqueci-me do pecado depois de tanta prece.
Pensei
na noite lá fora, estou a escutar Wake Up
Alone – Amy Winehouse conhecia os amores e os desamores; também os sabores
dos drinks. Agora mesmo gostaria de
uma máquina escrever, ou uma pena de bico fino e tinta – os prefiro ao
computador, soam românticos das gerações passadas, sou de uma segunda geração
–, a tecnologia assusta aquilo que chamo de potencial ou inspiração (por vezes,
tomo-os como sinônimos, mas não são). Uso lapiseira e uma folha qualquer – e
depois sagrada de mim.
Gostaria
de fazer meus sonhos essa noite, predizer fábulas de leões e carneiros; porém,
tudo foi filtrado pelos apanhadores de sonhos. Tenho um apanhador de sonhos em
frente ao espelho. Não sei o porquê, mas achei bonito olhar o reflexo dos
sonhos apanhados, estáticos no outro lado do espelho que é o mesmo que o nosso,
mas não o tocamos. Cometi um erro, nem sei mais se é isso o que eu acho sobre
os sonhos e o espelho, ou se só falei para dar uma explicação. Tenho mania de
compreensão, mesmo sabendo que não apanho nenhuma; até finjo querer ser
compreendido, mas é só fingimento.
Minha
indecência foi recusada – tremi de dor narcísica ferida. É assim: querer ser
forte para não admitir que algo está doendo; e ela dói mais ainda. Ou assim:
querer pregar o desapego do que se constituiu narcísico e, quando o constituído
sai em liberdade, o apego aperta a garganta, pois o desapego foi só uma mentira
para que o preso fique sem saber que estava em uma alcova. Dói; e também é
culposo. Acho que isso é que é pecado, até fere a alma. Perdoe-me, Alguém.
Pretendi
repetir a proposta a fim de conferir se não tinha tomado o aceito como uma
recusa. Vez ou outra isso me ocorre; no meu íntimo, têm coisas que ofereço que
são para ser recusadas – nem por educação eu as ofereço, devo oferecer por
simpatia que não compreendo. Vacilei, tremi e não propus: dor narcísica também é
saúde.
Bem
sei que não se tratava de uma condição: ou eu ou. Também saber e compreender
não faz com que as ações mudem – e isso eu não quero explicar e quero ser
compreendido.
O
que escrevo não se aplica; também é tudo introspecção e tão pouco há de
coerência. Até quando isso, Joana?! (poderia ter sido qualquer nome, só queria
uma frase pontuada com “?!”)
Iria
compartilhar a proposta indecente, falar tanto sobre ela até que pudesse virar
decente; mas por tudo que me ocupei de discorrer, finjo que já esqueci – eu
disse que não era pecado tampouco heresia. Eu me usei e me gastei para aliviar
minha própria angústia com duas ou três palavras, também estou usando quem um
dia possa ler esse escrito; se não tiver uma angústia, tome a minha. Umas eu
contei e outras foi Amy quem me disse. E amanhã acordarei sozinho.