Hoje
acordei sozinho. Até poderia ter dito acordei sozinho de novo, porque têm
alguns dias que não acordo acompanhado, embora deva dizer que mesmo acordando
sozinho, sentia-me acompanhado. Não hoje. Tristeza não me acompanha agora, nem
sentar para tomar um drink ela
gostaria. Sente-se, angústia; acompanhe-me, solidão.
Por
alto, sei que parece muito drama ou sofrimento o que conto – não sei a quem
conto, talvez a mim mesmo –, mas eu não estou dramatizando o sofrer. Por que
deveria estar triste por todas as coisas estúpidas que não fizemos? Há um tempo
não tenho escrito, acho que estava morto por não entrar em contato com alguma
coisa que se toca quando escrevemos: o que costumeiramente não sabemos sentir;
às vezes, escrever dói. Às vezes, escrever é exibir uma tatuagem que está
desenhada no perispírito. Acordei sozinho
e comecei a dançar com os dedos: solidão busca companhia, quis presentear-me
com o luxo de dar vida a alguns personagens, porém ficaram com suas histórias
pela metade. Uma parte de mim persiste em acreditar que o pessimismo aflora o
sentimento de conforto e felicidade. Como? É como quando estamos com muita fome
e qualquer comida que aparece tem o melhor sabor do mundo.
É
feriado e... – uma pausa, pois telefone está tocando... Desculpe a demora, mas
era importante. Um dia relato a ligação – é feriado e poderia ter ficado
deitado, porém quis contemplar o “acordar sozinho” de pé: eu e minha solidão.
Eu amo esperar, antecipado, pelo que não vem. Quem nunca esperou uma carta e só
recebeu uma conta de energia? Eu esperava por uma tarde na praia e algumas
poses ridículas para fotos.
Hoje
parece domingo, é dia de Corpus Christi –
deve ser por isso a semelhança. Não costumo achar empolgação nos domingos,
também porque são dias que o Senhor fez para o descanso. Hoje é quinta-feira,
30 de maio de 2013. A data não tem importância, porque em outro dia qualquer,
em um domingo ou em uma quarta, irei acordar com o mesmo sentimento e será
atual como aqui-agora; nem lembrarei que “acordei sozinho no dia 30 de maio de
2013”.
Estou
até sorrindo, meio alegre, da data. Nem sei por que, embora seja assim como pode
surgir a felicidade: coça nos lábios uma sensação esquisita de querer sorrir pelo nada. Acho que é do nada que vem
a felicidade; não a felicidade sem motivos, mas aquela em que não rimos pra
encontrar outro motivo pra rir. É apenas um querer mostrar os dentes para si e
fazer hahahahahaha. Volto a dizer que acordei sozinho em uma
quinta-feira que parece domingo – com o mesmo tédio.
Vou,
ao menos, tomar uma xícara de café amargo com duas fatias de pão e ser sozinho
com a barriga cheia. Amanhã acordarei sozinho e lembrarei de que o feriado se
estendeu – a sexta-feira foi apertada – e de que não terei de ir trabalhar. Agora,
até sorri antecipadamente por amanhã. Ah, antes que eu me esqueça, na ligação
eu ouvi um “eu te amo”.
Fábio Pinheiro Pacheco