domingo, 10 de março de 2013

Jornal da Manhã - Marília - SP, 10 de março de 2013

Jornal da Manhã - Marília - SP, 10 de março de 2013


Quando a dor de uma topada consegue ir além da cabeça do dedão do pé e atinge os pensamentos, é sinal de que alguma filosofia está por vir – seja praguejando, chorando ou mesmo clamando aos santos os porquês de tal ocorrido. Foi em uma dessas topadas que a sede me consumiu. Falo da sede de valorização das diversidades humanas. Por que tal sede? Não sei, mas não é só por falta de chuvas ou excesso delas que estamos diante das sedes que nada tem a ver com ingestão de água. Dia desses, noticiavam nos jornais secas no Sul e, como de costume, no Nordeste; além de fortes enchentes pelo Sudeste e outros eventos naturais ao longo do país. Com meu ar indiferente à indiferença disfarçada por preocupação, desliguei a televisão e fui caminhar pelo quintal semiárido, rodeado por aquela vegetação sequinha que normalmente está exposta nos livros didáticos para exemplificar a caatinga. Foi com a mão subindo à boca para sufocar um grito advindo de um tropeço em um galho de uma árvore qualquer que percebi o que eu já sabia e nunca tinha prestado atenção: nós – nordestinos, sulistas, ou de qualquer outra região – estamos necessitando mesmo é que encham o nosso ego pelo que temos de bom, pelas nossas diversidades culinárias, artísticas, culturais etc. As secas ou as enchentes estão por aí, sim, como sempre estiveram, seja em menor ou maior grau. E o sentimento de generosidade brasileira noticiado, por vezes, só serviu para rotular cada estado como portador de alguma necessidade. Mas a necessidade maior é o reconhecimento no que esses estados têm para oferecer, mesmo diante das dificuldades climáticas, geográficas e outras terminologias científicas das quais não conheço. A pena pela falta de água ou excesso dela desdobra-se em pouco conhecimento sobre como nos viramos para sobreviver diante tais adversidades. O que precisamos? Talvez que apenas se deem oportunidades de se permitirem entrar em contato com o que somos. Temos sede de comunhão de nação, da tal nação brasileira. Sufoquei o grito, mas não abafei minha revolta filosófica, pois na minha filosofia usei até palavras que parecia não saber usar. Eu, que não sei ler ou escrever, estava parecendo um poeta, um homem das palavras. E tudo isso por me sentir inundado por uma indignação pela exploração da imagem de “gente sofrida”. A notícia é importante, mas não para rotular mais ainda o status que cada estado já parece ter: seco, rico, atrasado, pobre, chuvoso entre outros. Sinto sede é de solidariedade que está além de um sentimento de pena. Quisera eu que a prepotência brasileira levasse um tropeço e com isso filosofasse a respeito das maiores precisões dos estados brasileiros: um reconhecimento das características singulares de cada região que, quando somadas, destacam os aspectos do que torna um brasil o Brasil, de fato. Foi ao sentir minha filosofia dissipar-se com a dor no dedão que sentei em uma cadeira no alpendre e pedi para que minha filha escrevesse minhas palavras, tortas e doloridas. Ao final de tudo, existe mesmo uma seca; não por falta de água, aquela composição de duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. É inegável que exista uma seca no Nordeste, mas há também uma seca porque assim fizeram de nós, enquanto por dentro enchemos o peito de alguma coisa que ainda não tem nome, mas é sinônimo de felicidade por estar de braços abertos à luta. A seca, no fundo, é reflexo da falta de olhos curiosos voltados para as riquezas que cada povo constrói: modo de ser, sentir e viver.