Quando
a dor de uma topada consegue ir além da cabeça do dedão do pé e atinge os
pensamentos, é sinal de que alguma filosofia está por vir – seja praguejando,
chorando ou mesmo clamando aos santos os porquês de tal ocorrido. Foi em uma
dessas topadas que a sede me consumiu. Falo da sede de valorização das
diversidades humanas. Por que tal sede? Não sei, mas não é só por falta de
chuvas ou excesso delas que estamos diante das sedes que nada tem a ver com
ingestão de água. Dia desses, noticiavam nos jornais secas no Sul e, como de
costume, no Nordeste; além de fortes enchentes pelo Sudeste e outros eventos
naturais ao longo do país. Com meu ar indiferente à indiferença disfarçada por
preocupação, desliguei a televisão e fui caminhar pelo quintal semiárido,
rodeado por aquela vegetação sequinha que normalmente está exposta nos livros
didáticos para exemplificar a caatinga. Foi com a mão subindo à boca para
sufocar um grito advindo de um tropeço em um galho de uma árvore qualquer que
percebi o que eu já sabia e nunca tinha prestado atenção: nós – nordestinos,
sulistas, ou de qualquer outra região – estamos necessitando mesmo é que encham
o nosso ego pelo que temos de bom, pelas nossas diversidades culinárias,
artísticas, culturais etc. As secas ou as enchentes estão por aí, sim, como
sempre estiveram, seja em menor ou maior grau. E o sentimento de generosidade
brasileira noticiado, por vezes, só serviu para rotular cada estado como portador
de alguma necessidade. Mas a necessidade maior é o reconhecimento no que esses
estados têm para oferecer, mesmo diante das dificuldades climáticas,
geográficas e outras terminologias científicas das quais não conheço. A pena
pela falta de água ou excesso dela desdobra-se em pouco conhecimento sobre como
nos viramos para sobreviver diante tais adversidades. O que precisamos? Talvez
que apenas se deem oportunidades de se permitirem entrar em contato com o que
somos. Temos sede de comunhão de nação, da tal nação brasileira. Sufoquei o
grito, mas não abafei minha revolta filosófica, pois na minha filosofia usei
até palavras que parecia não saber usar. Eu, que não sei ler ou escrever,
estava parecendo um poeta, um homem das palavras. E tudo isso por me sentir
inundado por uma indignação pela exploração da imagem de “gente sofrida”. A
notícia é importante, mas não para rotular mais ainda o status que cada estado já parece ter: seco, rico, atrasado, pobre,
chuvoso entre outros. Sinto sede é de solidariedade que está além de um
sentimento de pena. Quisera eu que a prepotência brasileira levasse um tropeço
e com isso filosofasse a respeito das maiores precisões dos estados brasileiros:
um reconhecimento das características singulares de cada região que, quando
somadas, destacam os aspectos do que torna um brasil o Brasil, de fato. Foi ao
sentir minha filosofia dissipar-se com a dor no dedão que sentei em uma cadeira
no alpendre e pedi para que minha filha escrevesse minhas palavras, tortas e
doloridas. Ao final de tudo, existe mesmo uma seca; não por falta de água,
aquela composição de duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. É inegável
que exista uma seca no Nordeste, mas há também uma seca porque assim fizeram de
nós, enquanto por dentro enchemos o peito de alguma coisa que ainda não tem
nome, mas é sinônimo de felicidade por estar de braços abertos à luta. A seca,
no fundo, é reflexo da falta de olhos curiosos voltados para as riquezas que
cada povo constrói: modo de ser, sentir e viver.
